No concerto internacional do Madrigale, escolher Stairway to Heaven não foi um gesto de impacto fácil. Não se tratava de levar o rock para o coro como curiosidade, nem de “sacralizar” a canção pelo simples deslocamento de contexto. A escolha passava por outro lugar: reconhecer que algumas músicas atravessam tempos, públicos e linguagens porque carregam algo estruturalmente forte.
Essa música, do Led Zeppelin, tem essa condição rara. Ela começa
quase em recolhimento, cresce com paciência e termina em expansão. É uma música
construída como percurso e talvez por isso dialogue tão bem com o coro, que
também se constrói no tempo, camada por camada, escuta por escuta, voz por voz.
Naquela apresentação, a canção ganhou uma dimensão especial com o solo de Aline Magalhães, conduzido com clareza e presença, sem excessos interpretativos. A voz não disputava espaço com o coro; ela surgia de dentro dele, como prolongamento natural da narrativa musical.
E houve ainda um outro acontecimento em cena: a participação do meu amigo, grande violonista e guitarrista Elias Santos. Seu solo foi, literalmente, um concerto à parte. Não como virtuosismo exibido, mas como discurso musical consciente, integrado ao todo. A guitarra não aparecia como elemento estranho ao coro; ela dialogava, sustentava, tensionava e libertava a música nos momentos certos.
O coro, por sua vez, fazia o
que sabe fazer melhor quando encontra repertório que lhe pede maturidade:
sustentava o arco longo, cuidava das transições, respeitava o silêncio e o
crescimento gradual da peça. Não havia pressa. Stairway to Heaven exige
tempo, e o Madrigale soube oferecê-lo.
Talvez tenha sido isso que
tornou aquele momento tão significativo: a sensação de que a música não estava
sendo adaptada para caber no coro, mas reencontrada a partir dele. Rock, canto
coral, voz solista e guitarra convivendo sem hierarquia forçada, sem concessões
fáceis. Para mim, esse tipo de escolha diz muito. Diz que o coro não está ali
apenas para representar um repertório consagrado, mas para afirmar uma maneira
de escutar.
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