Tem momentos em que a gente percebe que continuar no mesmo ritmo seria uma forma de deslealdade consigo mesmo. Eu senti isso. O Madrigale precisou parar, e essa decisão não foi simples, nem confortável. Houve dúvidas, houve peso, houve silêncio, mas havia também uma necessidade incontornável de me recolher...
Eu precisava me refazer. Precisava pesquisar, estudar, olhar de novo para as perguntas que me movem há tantos anos. E, no meio disso tudo, perceber que pesquisa e refazimento não são coisas separadas: quando eu mergulho no pensamento, reorganizo o maestro; quando reorganizo o maestro, reorganizo a mim mesmo; e quando isso acontece, eu reorganizo o coro.
Esse tempo foi um hiato humano. Foi um tempo de revisar convicções, de reavaliar prioridades, de admitir cansaços e redescobrir desejos. Foi um tempo de perguntar, com honestidade, o que ainda faz sentido. Retomar os ensaios, portanto, não é simplesmente voltar a cantar. É voltar depois de ter atravessado algo. É erguer o braço sabendo que ele carrega mais consciência do que antes. É reencontrar o coro não como quem retoma um projeto, mas como quem reencontra uma parte essencial de si (transformada).
Ao longo de 33 anos de existência, o Madrigale atravessou repertórios, formações, fases estéticas, crises e conquistas. O que permanece não é um estilo fixo, nem uma sonoridade cristalizada. O que permanece é uma ética.
Ser Madrigale nunca foi apenas cantar bem. Isso é pressuposto. Ser Madrigale é aceitar que o palco não é lugar de exibição, mas de exposição. Exposição de fragilidades, de tensões internas, de respirações que precisam coincidir. Uma hora de concerto é apenas a superfície visível de um trabalho invisível: horas de ajuste fino, de escuta mútua, de negociação silenciosa entre naipes.
Ser Madrigale é compreender que o som não nasce do indivíduo, mas do acordo. Que um solo só floresce porque há um corpo coletivo que o sustenta. Que afinação não é apenas frequência correta, mas atenção radical ao outro. Que o ritmo não é somente pulso métrico, mas respiração compartilhada. Aprendi que emoção não se impõe. Ela emerge quando a técnica está suficientemente consolidada para deixar de ser protagonista. Quando o cantor já não está preocupado em “acertar”, mas em sustentar a intenção. Quando o coro deixa de ser um conjunto de vozes e passa a agir como organismo.
Ser Madrigale é aceitar o rigor sem perder a leveza. É saber que disciplina não é dureza. Que intensidade não é volume. Que alegria não é desordem. Que espiritualidade não é lentidão. É compreender que a música é maior do que nós, mas que só acontece através de nós.
Hoje entendo, com mais nitidez, que o Madrigale nunca foi apenas um grupo que eu conduzo. Ele é também um lugar onde eu próprio me faço ao longo da vida. O coro amadurece e, com ele, amadurece o maestro. O grupo se reorganiza, e, com ele, reorganizo minhas escutas, minhas exigências, minhas escolhas. O Madrigale me forma tanto quanto eu o formo.
Ser Madrigale é um exercício permanente de construção coletiva. Não é identidade pronta; é identidade em processo. Não é resultado; é travessia. E quando essa travessia encontra coerência entre consciência e emoção, entre técnica e presença, a música deixa de ser execução. Torna-se verdade compartilhada.
Sendo assim, eu sou Madrigale... e o Madrigale sou eu.
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