sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Madrigale em Poços de Caldas, 1995

Eu ainda me lembro da sensação de colocar as partituras na mochila com um frio no estômago desde Belo Horizonte. Era um verdadeiro teste. Participar daquele Festival significava nos expor num cenário onde outros coros já tinham história, tradição, nome consolidado. Nós éramos jovens. E queríamos ser levados a sério.

Chamávamo-nos Coral Madrigale Nansen. A Nansen Aparelhos de Precisão nos patrocinava, nos apoiava com generosidade e acreditava em nós. Carregávamos aquela marca com orgulho porque eram os nossos primeiros patrocinadores, um voto de confiança.

Eu tinha 28 anos e, hoje, penso naquele jovem maestro com certa ternura. Ele não fazia ideia do que aquele coro se tornaria. Só sabia que queria fazer música da melhor qualidade possível. 

O uniforme era outro tempo: suspensórios, cores claras, uma identidade visual quase ingênua. Não tínhamos sede fixa de ensaio, não tínhamos a estrutura confortável que temos hoje, mas tínhamos vontade, e isso, naquela fase, parecia suficiente.

Le Chant des Oyseaux era nossa joia. Cantávamos aquela peça com orgulho porque, para nós, conseguir executar Janequin com segurança era prova de maturidade coral.

Mas então veio o episódio que marcaria aquela viagem.

A organização do Festival informou que haveria alojamento para os grupos. Quando chegamos, encontramos um ginásio coberto, um salão frio, com cheiro de mofo, colchões espalhados pelo chão. Alguns cantores alérgicos já começaram a sentir os primeiros sinais de desconforto. A tensão cresceu rapidamente.

Foi então que Kátia Malloy, diretora do coro na época, assumiu o comando com a firmeza que lhe era própria. Saiu pela cidade e, em poucas horas, conseguiu um acordo improvável: um hotel no centro nos hospedaria por um valor reduzido, desde que fizéssemos uma apresentação privada para os hóspedes.

Problema resolvido para nós. Problema criado para o Festival. A decisão não foi bem recebida. Alguns entenderam como recusa, outros como capricho. Havia olhares atravessados. Comentários sussurrados. A palavra “arrogância” talvez tenha circulado ali, mesmo que não dita abertamente. Éramos os “moleques atrevidos” que não quiseram dormir no ginásio.

Então, subimos ao palco naquela noite carregando não apenas partituras, mas um clima. Havia expectativa, talvez até certo desejo de nos ver tropeçar. Atacamos Le Chant des Oyseaux. A tensão inicial se dissolveu nos primeiros compassos. A energia circulou. Quando terminamos, veio um aplauso caloroso, daqueles que atravessam o corpo e dizem: “os meninos são bons”.

As peças seguintes foram executadas num outro ambiente. O spiritual aproximou o público de uma escuta mais íntima. A peça brasileira, com seus assovios e sua vitalidade rítmica, abriu sorrisos. A música fez o que sempre faz quando é bem feita: reorganizou percepções. No fim da noite, o que parecia arrogância tornou-se compreensão. Não queríamos privilégios, queríamos preservar as vozes. Queríamos cantar bem. O que parecia capricho revelou-se cuidado e eles entenderam.

Hoje, percebo que aquele episódio dizia muito sobre o que o Madrigale sempre foi e quis ser. Um coro disposto a assumir riscos, a enfrentar olhares tortos, a sustentar decisões quando acreditava nelas. Jovem, ousado, às vezes mal interpretado, mas comprometido com a música.

O Festival de Poços de Caldas foi uma pequena prova de caráter coletivo e, sem que soubéssemos, foi também um dos primeiros momentos em que aprendemos que afirmar-se musicalmente exige coragem fora do palco tanto quanto dentro dele.

Eu tinha 28 anos... O coro ainda estava se descobrindo. Mas ali, naquele palco, algo ficou claro: éramos bons. E queríamos continuar sendo.


Salão com pessoas ao redor

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Foto em preto e branco de grupo de pessoas posando para foto

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 Da Esquerda para a Direita
Em Cima: Arnon, Marco Paulo, Joubert, Éder, Ricardo, Sérgio, Hauck, André, Gustavo
Em baixo: Juliana, Luciana, Letícia, Fernanda, Daniela, Kátia, Polliana, Sandra

Uma imagem contendo chão, no interior, mesa, quarto

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Desenho de animal

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Diagrama

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