sábado, 18 de julho de 2026

Hostílio Soares para além da nossa lembrança

Conheci a música de Hostílio Soares em 1995. Ele havia morrido em 1988 e, naquele momento, sua obra já parecia meio fora de lugar. Não por falta de valor, mas porque vinha carregada de um rótulo pesado: compositor conservador, tonal, ligado a outro tempo. Isso acontece muito no meio musical. De tempos em tempos, aquilo que não parece novo o bastante começa a ser tratado como menor. E, por isso, muita música deixa de ser ouvida antes mesmo de ser compreendida.

Hostílio era mesmo um compositor de formação tradicional. Não há por que disfarçar isso. Seus alunos o lembravam como um professor rigoroso, conservador, às vezes duro. Eu mesmo tive aulas com Dolarino, um de seus discípulos, e reconhecia ali uma forma de ensino muito ligada à tradição, ao método de Paulo Silva, que também foi professor de Hostílio. Mas esse dado não diminui sua música. Ajuda a entendê-la. Hostílio não escrevia a partir da ruptura, nem parecia interessado em parecer moderno a qualquer custo. Escrevia a partir de um domínio técnico sólido, de uma escuta tonal e cromática, de uma formação que levava a sério harmonia, contraponto, forma, densidade e construção.

Para alguns, sua música era tradicional demais. Para outros, difícil demais. É um lugar ingrato. Ele não oferece a novidade que certos ambientes acadêmicos costumam valorizar, mas também não entrega a facilidade que muitos coros procuram. Sua música pede afinação, paciência, densidade coral e harmônica, maturidade expressiva. Não se resolve depressa. Cobra do cantor e cobra do regente. Talvez por isso seja pouco cantada. Falta interesse, sim. Mas falta também uma política real de repertório brasileiro, capaz de sustentar a circulação de obras que exigem estudo, edição, ensaio e persistência.

Durante muito tempo, Hostílio ficou ligado, para mim e para muitos cantores, à experiência do Madrigale. Isso é bonito, mas tem seu risco. O Madrigale trouxe sua música de volta ao cenário musical de Belo Horizonte, e essa foi uma contribuição importante. No caminho inverso, Hostílio também deu muito ao Madrigale. Sua música obrigou o coro a trabalhar outra concentração, outra maturidade expressiva, outra relação com a emoção. Mas essa ligação ficou tão forte que, de algum modo, pode ter prendido o compositor à memória de um grupo. Hostílio não pode ser apenas “o compositor que o Madrigale cantava”.

A obra dele é maior do que isso. Há missas, como a Missa São João Batista e a Missa Sábado Santo, há a Sinfonia Krishnamurti, há peças menores, há música sacra, vocal, instrumental, sinfônica. Ao longo dos anos, resgatei e digitalizei uma boa quantidade de obras suas, e esse contato com o acervo foi me mostrando um compositor mais amplo do que a circulação atual deixa perceber. Hostílio pertence a outra etapa da música mineira: mais acadêmica, mais urbana, mais ligada ao conservatório, mas ainda atravessada por uma religiosidade que tem muito do interior de Minas.

Por isso, a afeição não basta. Gostar de Hostílio porque sua música marcou uma fase do Madrigale é só o começo. É preciso tirá-lo desse lugar de lembrança afetiva e recolocá-lo como compositor brasileiro que ainda precisa ser ouvido com atenção. Não para transformá-lo em monumento. Compositor nenhum melhora quando vira estátua. O que interessa é fazer sua música voltar ao ensaio, ao erro, à afinação difícil, à discussão de estilo, ao corpo dos cantores, à escuta do público.

Hostílio Soares não é apenas um compositor lembrado por quem o cantou. É um compositor que ainda precisa ser devidamente ouvido. Talvez esse seja o ponto mais justo: não defendê-lo por carinho, nem pedir desculpas por sua linguagem conservadora, mas colocá-lo novamente diante de coros, regentes e ouvintes. A música brasileira não se amplia apenas quando descobrimos nomes novos. Às vezes ela se amplia quando voltamos a escutar, sem preguiça, aqueles que deixamos cedo demais no canto da memória.

Me lembro sempre de uma fala do Oiliam: "de fato, Hostílio não era um compositor original como muitos poderiam esperar, mas era um Mestre".







Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu nome e e-mail para que eu responda. Obrigado.

Hostílio Soares para além da nossa lembrança

Conheci a música de Hostílio Soares em 1995. Ele havia morrido em 1988 e, naquele momento, sua obra já parecia meio fora de lugar. Não por f...