terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Stairway to Heaven: um clássico em travessia coral

No concerto internacional do Madrigale, escolher Stairway to Heaven não foi um gesto de impacto fácil. Não se tratava de levar o rock para o coro como curiosidade, nem de “sacralizar” a canção pelo simples deslocamento de contexto. A escolha passava por outro lugar: reconhecer que algumas músicas atravessam tempos, públicos e linguagens porque carregam algo estruturalmente forte.

Essa música, do Led Zeppelin, tem essa condição rara. Ela começa quase em recolhimento, cresce com paciência e termina em expansão. É uma música construída como percurso e talvez por isso dialogue tão bem com o coro, que também se constrói no tempo, camada por camada, escuta por escuta, voz por voz.

Naquela apresentação, a canção ganhou uma dimensão especial com o solo de Aline Magalhães, conduzido com clareza e presença, sem excessos interpretativos. A voz não disputava espaço com o coro; ela surgia de dentro dele, como prolongamento natural da narrativa musical. 

E houve ainda um outro acontecimento em cena: a participação do meu amigo, grande violonista e guitarrista Elias Santos. Seu solo foi, literalmente, um concerto à parte. Não como virtuosismo exibido, mas como discurso musical consciente, integrado ao todo. A guitarra não aparecia como elemento estranho ao coro; ela dialogava, sustentava, tensionava e libertava a música nos momentos certos.

O coro, por sua vez, fazia o que sabe fazer melhor quando encontra repertório que lhe pede maturidade: sustentava o arco longo, cuidava das transições, respeitava o silêncio e o crescimento gradual da peça. Não havia pressa. Stairway to Heaven exige tempo, e o Madrigale soube oferecê-lo.

Talvez tenha sido isso que tornou aquele momento tão significativo: a sensação de que a música não estava sendo adaptada para caber no coro, mas reencontrada a partir dele. Rock, canto coral, voz solista e guitarra convivendo sem hierarquia forçada, sem concessões fáceis. Para mim, esse tipo de escolha diz muito. Diz que o coro não está ali apenas para representar um repertório consagrado, mas para afirmar uma maneira de escutar.

🎬 Madrigale Pop Internacional – 12. Stairway To Heaven

 



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O começo do Madrigale

O começo do Madrigale não foi com anúncio nem com a sensação de fundação. Não havia a ideia de criar um coro que duraria décadas, nem a intenção de estabelecer um nome. Havia, antes de tudo, um grupo de pessoas que já vinha de um percurso comum, que gostava de cantar junto e que encontrou uma oportunidade concreta de cantar um tipo de repertório que gostavam.

Os cantores que deram forma a essa primeira ideia vinham de lugares distintos, mas traziam algo em comum. Havia ali pessoas que tinham passado pelo Coral da Ação Social Menino Jesus, um grupo que se encerrou não por falta de qualidade, mas por falta de verba. E havia também cantores do Newton Paiva, coro que dirigi por cerca de seis meses e que, apesar de muito bom, não se sustentou para mim, não por incapacidade do grupo, mas porque a minha maneira de trabalhar não correspondia ao que eles esperavam. 

Essas duas experiências se encontraram num ponto curioso: eram cantores que queriam continuar cantando. Que não estavam dispostos a aceitar o fim de um grupo como fim do canto. A ideia de montar um novo coro surgiu quase como continuidade natural, não como ruptura. Nos juntamos, ensaiamos, apostamos...

Ficamos cerca de três meses preparando para um primeiro concerto. Sem pressa, sem garantias, sem horizonte muito longo. Apenas o tempo necessário para que o repertório ganhasse corpo e o grupo começasse a se reconhecer como conjunto. No meio do caminho, nos demos conta de que não tínhamos um nome. Me lembro de Kátia com um dicionário de termos musicais na mão e descartando nomes. Aí apareceu a palavra em uma peça de Monteverdi. Todos sorriram e, pronto, lá estava acertado o nome do conjunto.

Eu era aluno da Escola de Música da UFMG. Consegui o auditório e fomos cantar. Assim começou o... MADRIGALE.

 


Última fila: Léo, André, Marco Paulo, Arnon, Ricardo, Daniel, Hauck, Beto, Eduardo
Fila da frente: Decat, Guilherme, Joana, Fernanda, Cristina, Luciana, Sandra, Kátia, Clélia
Agachadas: Malu, Juliana, Celina, Ju Palhares












domingo, 18 de janeiro de 2026

Carlos Alberto Pinto Fonseca: algumas reflexões que continuam valendo

Carlos Alberto Pinto Fonseca continua sendo, para mim, uma grande referência como compositor, como regente e como pensador do fazer coral. Ao longo dos anos, muito se falou da sua música, mas talvez se fale menos do quanto ele pensava o trabalho coral de maneira profunda, prática e extremamente responsável.

Esse documento, que aqui disponibilizo, foi escrito por ele em 1980. São reflexões em torno de elementos básicos da regência coral. Não se trata de um tratado acadêmico nem de um manual fechado. É um texto de maestro para maestros, de alguém que viveu intensamente o movimento coral e sentiu a necessidade de compartilhar observações, cuidados, alertas e princípios a partir da experiência concreta.

Carlos Alberto escreve sobre repertório, preparo de peça, estilo, andamento, fraseio, técnica vocal e técnica de regência, mas escreve sempre a partir de uma ideia central: respeito à música, às vozes e às pessoas. Não há concessão ao efeito fácil, nem indulgência com improvisos mal fundamentados. Ao mesmo tempo, não há dogmatismo. Há clareza, exigência e compromisso com a verdade musical. O texto nasceu, inclusive, de uma situação muito específica: após um encontro de corais, ele foi provocado a fazer críticas diretas aos grupos. Opta por não fazê-las. Em vez disso, prefere falar dos problemas de maneira geral, sem expor ninguém. Isso diz muito sobre sua ética. Criticar, para ele, não era apontar o outro, mas fortalecer o campo.

Lendo hoje, mais de quarenta anos depois, impressiona o quanto essas reflexões permanecem atuais. A preocupação com repertório adequado ao grupo, com dicção, com estilo, com o uso consciente dos chamados “efeitos”, com a técnica vocal e com a clareza do gesto continuam sendo questões centrais do fazer coral, talvez ainda mais num tempo em que a pressa, a visibilidade e o produto final muitas vezes se sobrepõem ao processo.

Transcrevi esse documento com cuidado e o disponibilizo aqui na íntegra, para quem quiser ler, estudar, concordar, discordar, dialogar, não como peça de museu, mas como material vivo, que pode, e deve, provocar reflexão. Na minha opinião, Carlos Alberto não escrevia para impressionar. Ele escrevia para formar. E isso, hoje, é valioso demais para ficar guardado.

👉 O arquivo está disponível para download para todos os interessados. 

📕 Reflexões Carlos Alberto Pinto Fonseca





 

sábado, 17 de janeiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (1)

Algumas viagens são apenas deslocamentos. Outras, raras, mudam o lugar que algo ocupa no mundo. A excursão do Madrigal Renascentista em 1959, ao sul do Brasil, Argentina e Chile, pertence a esse segundo tipo, não apenas pelo número de concertos, pela duração (43 dias) ou pelos países envolvidos, mas porque, a partir daquele momento, o coro deixou de ser apenas um grupo de alta competência musical para se tornar um fato público acompanhado, narrado e observado em tempo real.

O jornal O Diário, de Belo Horizonte, destacou um repórter exclusivamente para acompanhar o coro. Não se tratava de uma cobertura pontual, nem de uma crítica eventual. Era o registro cotidiano: ensaios, deslocamentos, recepções, bastidores, reações do público. Como se narrar o dia a dia de um coro em excursão fosse, por si só, de interesse coletivo. E era.

Guardadas as proporções, esse tipo de acompanhamento se aproxima do que se faz com missões diplomáticas, com eventos políticos ou com frentes culturais estratégicas. O investimento do jornal revela algo importante: havia um público que queria saber, dia após dia, o que acontecia com aquele grupo de jovens músicos que saía de Minas para representar algo maior do que a si mesmos.

O sucesso fora do Brasil, especialmente na Argentina e no Chile, não foi apenas celebrado depois. Ele foi vivido junto, acompanhado passo a passo, quase como um romance em capítulos. Isso diz muito sobre o lugar que o canto coral ocupava naquele momento da vida cultural brasileira.

Hoje, quando falamos em circulação, visibilidade e relevância da música coral, é difícil imaginar um cenário semelhante. Em 1959, porém, um coro lotava teatros, era convidado para programas de rádio e televisão, mobilizava autoridades, despertava curiosidade e provocava investimento institucional.

Esse primeiro post não é ainda sobre repertório, nem sobre política externa, nem sobre gravações. É sobre outra coisa: sobre o momento em que o Madrigal passou a existir também fora do palco, como narrativa, como símbolo, como acontecimento acompanhado.

Ficaram curiosos sobre o que foi essa excursão? Nos próximos textos, eu entro nos detalhes. Aqui, o que importa é registrar o ponto de inflexão: quando cantar deixou de ser apenas cantar e passou a ser presença no mundo (e narrada).

 Este texto integra uma série sobre a segunda excursão internacional do Madrigal Renascentista, em 1959. Publicarei um segundo post no dia 24/01. Até lá!!!



Foto do coro em momento de descontração com autoridades 
de Valparaíso (Chile) – 1959 (Acervo Madrigal Renascentista)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Harvard Opportunes

Nas minhas pesquisas recentes sobre coros, cheguei ao Harvard Opportunes, um grupo a cappella universitário de formação mista, fundado em 1980. Seguindo informações gerais, eles se dizem "um conjunto que nasceu fora de estruturas curriculares rígidas e se sustenta, ao longo do tempo, como prática coletiva regular de canto."

O grupo não é uma tentativa de afirmar um ideal de excelência técnica como fim em si, mas se organiza a partir de outra lógica: cantar juntos como prática contínua, integrada à vida universitária e às relações que ali se constroem. E o repertório, composto de música popular e arranjos contemporâneos, acompanha isso, escolhas que dialogam com o tempo presente e com as vozes que o grupo tem nas mãos.

Há, nos materiais do próprio grupo, uma ênfase clara na convivência. Ensaios e apresentações aparecem menos como eventos isolados e mais como parte de um processo cotidiano. Isso recoloca uma questão antiga da prática coral: o coro não se define apenas pelo que apresenta em público, mas pelo modo como se organiza internamente. Mesmo quando os Opportunes participam de competições, realizam gravações profissionais ou circulam em turnês, procuram ser um grupo que se pensa como coletivo antes de se pensar como produto. E aí, a música surge como consequência de uma dinâmica interna estável, e não como finalidade única.

Esse tipo de experiência interessa porque ajuda a observar como a prática coral universitária tem se reorganizado fora dos repertórios tradicionais e das estruturas institucionais clássicas. Mudam os contextos, mudam os repertórios, mudam os meios de circulação, mas permanece a ideia do coro como espaço de escuta compartilhada, negociação constante e construção de vínculos.

É nesse ponto que o Harvard Opportunes se torna um objeto relevante de observação: não como exceção, mas como sintoma de um modo contemporâneo de viver o canto coletivo.

 

BLACKBIRD | The Harvard Opportunes (The Beatles Cover)

 

Placa de letreiro luminoso

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

15 de janeiro (Dia Mundial do Compositor)

Hoje é o dia mundial do compositor. E não deixa de ser curioso que se reserve um dia específico para quem passa a vida inteira lidando com algo que nunca se resolve completamente: a criação.

Ser compositor é aceitar uma condição ingrata. É ser responsável por um número imenso de filhos, muitas vezes, sem pai reconhecido. Filhos que circulam pelo mundo, às vezes crescem, às vezes são esquecidos, às vezes fazem sucesso sem que ninguém se pergunte de onde vieram. E, para completar, o compositor ainda precisa disputar atenção com uma multidão de pessoas que, no nosso tempo, também se dizem compositores, ainda que confundam criação com arranjo ocasional, com repetição bem-sucedida ou com simples coincidência sonora.

Há algo difícil de explicar a quem não vive isso de dentro: a maior parte do que se faz hoje já foi pensada, testada e transformada muitas vezes ao longo dos séculos. Isso não invalida a criação contemporânea, mas exige consciência histórica. Criar não é inaugurar o mundo todos os dias. É dialogar com ele.

Vivemos um tempo em que a palavra cantada muitas vezes se sobrepõe à música. Canções pobres do ponto de vista musical tornam-se grandes sucessos porque o texto “funciona”, porque a imagem é sedutora, porque há um vídeo, uma coreografia, uma narrativa pronta para consumo. Se o texto fosse apenas lido, talvez não sobrevivesse. Se a música fosse apenas ouvida, talvez não se sustentasse. Mas o pacote funciona, e isso basta. Felizmente, a boa qualidade ainda se mantém e cabe a nós escolhermos bem o que consumimos nesse mundo do capital.

Também não faço apologia ao outro extremo: o do compositor que acredita que complexidade é sinônimo de profundidade. Aquele que escreve para provar algo, para exibir técnica, para alimentar o próprio ego. Quiálteras, mudanças de compasso, estruturas intrincadas que não comunicam nada além do esforço de parecer original. Esquece-se, às vezes, que criação também é gesto de oferta. Que a música, mesmo quando desafia, precisa dizer alguma coisa a alguém.

Ainda assim, e talvez justamente por isso, hoje é dia de homenagem.

Homenagem a todos os que insistem em criar. Aos que acertam muito, aos que acertam pouco, aos que ainda procuram. Porque a essência da criação é o que movimenta o mundo. É ela que impede o tempo de se tornar apenas repetição.

Que cada um ouça o compositor que lhe fala mais de perto. Eu, daqui, ouço a minha compositora preferida e do coração, que fez essa linda música, hit dos casamentos pelo Brasil a fora, mas ninguém sabe que a composição é dela. 

 

🎵 Nossos Planos (Lívia Itaborahy)

 


 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Oriens - Jamie Brown

No ano de 2008, tivemos, entre nossos cantores, um britânico chamado Jamie Brown. O Zeb, como era conhecido por nós, era um jovem compositor que, naquela ocasião, buscava experiências em nossa terra. Veio ao Brasil para ficar com amigos e acabou permanecendo por cerca de um ano. Nos conhecemos por acaso e ele quis cantar no coro, no naipe dos baixos.

Quando estávamos preparando nosso concerto de música sacra, ele me apresentou uma peça sua, escrita em 2007: O Oriens. A obra foi imediatamente inserida no programa.

O Oriens tem uma característica especial: é escrita para várias vozes femininas, com duas solistas separadas do coro. A catedral possui dois púlpitos no altar, o que proporcionava as condições exatas para a ideia original da peça. Assim, o coro ficou disposto na escadaria defronte ao altar, enquanto as duas solistas (Clara Guzella e Márcia Maria Reis Teixeira) ocuparam os púlpitos, uma de cada lado.

Destaco a qualidade da escrita de Brown. Diferente de muitos compositores contemporâneos que não se preocupam propriamente com a escrita coral, mas com a demonstração de técnicas composicionais, ele demonstra conhecimento claro dos processos do coro. As vozes são bem divididas, escritas de forma a explorar as capacidades de cada naipe, sem dificuldades mirabolantes de afinação.

À época, Jamie já tinha uma formação sólida no Reino Unido e um interesse evidente pela relação entre música, texto e narrativa. Isso aparece com clareza nesta obra que é pensada para o espaço, para as vozes e para o gesto musical coletivo.

Foi um desses encontros felizes. Um compositor que cantava no coro e cuja interpretação musical nasceu naturalmente desse convívio.

 

🎬 O Oriens - Brown

 

 

Homem com a boca aberta

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 Jamie Brown (Zeb)

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ave Maria dos Andores (Madrigale na pandemia)

 Ave Maria dos Andores foi mais um dos coros virtuais produzidos durante a pandemia. O vídeo integrou originalmente o Concerto de Natal do Coro Madrigale, apresentado em live no YouTube em 22 de dezembro de 2020. Em janeiro de 2021, optamos por reapresentá-lo de forma independente, não como repetição, mas como um agradecimento a quem nos acompanhou ao longo daquele tempo difícil e como um desejo simples: que 2021 trouxesse luz.

Para essa produção, Fernanda Valadares se deslocou até Ouro Preto. As imagens feitas ali deram frescor e vida ao vídeo. As ruas, os andores, o ritmo do caminhar... tudo dialogava com a música sem excesso, com naturalidade. A cidade e os movimentos não ilustravam; respiravam junto.

A interpretação de Fernanda conduzia a peça com sobriedade e presença. Ao seu redor, em algum lugar, os naipes femininos do Madrigale sustentavam o tecido vocal com delicadeza e escuta mútua, enquanto o acompanhamento de Hely Drummond oferecia chão e movimento. Nada grandioso, mas necessário.

Naquele tempo, cantar Ave Maria dos Andores foi também aceitar a lentidão. Aceitar que o sagrado podia se manifestar no deslocamento curto, no gesto contido, na repetição que acalmava. O vídeo não tentava substituir o encontro presencial. Assumia, com clareza, que um caminho ainda era possível, desde que feito com cuidado.

E lembrá-lo hoje continua sendo um gesto de permanência. Um modo de dizer que atravessamos um tempo prolongado de recolhimento, sustentados pela fé na vida, e de reafirmar que a música segue sendo lugar de encontro, mesmo quando mediado por telas.

 

Coro Madrigale - Ave Maria (dos Andores)

 

Mulher com lenço na cabeça

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O coro como microcomunidade (uma reflexão)

Fala-se muito de coro a partir do resultado (concertos, repertório, qualidade sonora) e pouco do coro como lugar de convivência. Ao longo dos anos, regendo diferentes grupos, fui percebendo que o que sustenta um coro nem sempre aparece no palco, porque antes do som, há relações; antes da afinação, há acordos. Pensar o coro como microcomunidade é tentar nomear esse território invisível, feito de fragilidades, pactos e silêncios, e é a partir daí que tudo começa.

Antes da ideia de cantar, antes mesmo da ideia de cantor, existe uma pessoa. Pessoas diferentes, com histórias, fragilidades e desejos distintos, que em algum momento da vida decidem cantar num coletivo. As motivações raramente são puramente musicais. Pode ser o som, mas pode ser o pertencimento; pode ser a vontade de escutar melhor, a si e ao outro; pode ser a busca por alguma ordem possível na vida. O coro acolhe tudo isso. Ele permite mistura e também algum grau de escondimento. Por isso nunca é totalmente claro se alguém chega a um coro pelo canto ou pela necessidade de estar junto. Talvez o coro comece, de fato, antes do som.

Com a entrada no coro, surgem os pactos. Promessas explícitas ou implícitas: pontualidade, dedicação, lealdade, silêncio, autonomia, compromisso com o coletivo. Esses pactos podem vir do regente, do grupo, da tradição ou até de um estatuto. Pela experiência, penso que a quebra desses pactos costuma ser consciente, não por má-fé, e, no fim, quem precisa reconhecer essa quebra é o regente. Talvez o maior conflito coral aconteça quando as regras continuam existindo, mas o sentido delas se perde.

É aí que o coro se revela um lugar curioso. Ninguém está completamente exposto, mas ninguém está completamente protegido. Dependendo do grupo, um cantor inexperiente pode ser acolhido, acompanhado, quase apadrinhado. Em outros contextos, pode ser cobrado desde o primeiro ensaio, em nome da tão invocada excelência, palavra que hoje precisa ser sempre interrogada. Excelência segundo quem? Segundo quais critérios? 

Essa pergunta leva a outra, ainda mais delicada: o que é mais frágil num coro: a afinação técnica ou o sentimento de pertencimento? Pela vivência, quase sempre é o segundo. A harmonia de um coro nem sempre se estabelece apenas pela afinação das notas, mas pela afinação das relações. O coro ensina a errar em público. Nem sempre de forma confortável. O grupo pode sustentar quem erra (e deveria fazê-lo), mas nem todo coro suporta a imperfeição humana que a música revela. Idealmente, deveria, mas, na prática, muitas vezes não suporta. A permanência ou a saída de cantores costuma estar ligada a isso: idade, cansaço, mudança de voz, desgaste com os processos, perda de sentido.

Por isso, nem tudo num coro se resolve cantando. Há coisas que não são ditas, embora todos saibam. Há conflitos que se dissolvem momentaneamente pela entrega musical, pelo concerto, pela sensação de dever cumprido em nome do coletivo. Mas há também silêncios que são pura omissão; há silêncios que mantêm a música de pé, mas derrubam pessoas; e há silêncios que sustentam a instituição. Distinguir uns dos outros talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida coral.

Nesse organismo, o regente nunca é neutro. Ele é mediador, autoridade, escudo e espelho. Quando protege o grupo, muitas vezes se coloca para sustentá-lo. No curto prazo, isso funciona. No longo prazo, cobra seu preço. Reger é também regular tensões. Muitas decisões musicais, escolha ou exclusão de repertório, por exemplo, são tomadas para evitar conflitos humanos. Toda decisão musical é, em algum grau, uma decisão política dentro da microcomunidade.

Talvez por isso o coro seja algo deslocado do tempo em que vivemos. A vida contemporânea premia o indivíduo, o coro insiste no coletivo. Sempre tive como princípio não permitir que um coro fosse apenas lazer. A formação, ainda que somente técnica, é necessária. Faz parte do papel do regente não deixar que um grupo acredite ser mais do que é, mas também não permitir que ele se acomode aquém do que pode ser. O crescimento precisa ser constante e consciente.

Para mim, um coro não é, e nunca foi, utopia. É exercício permanente de negociação. E talvez por isso ele seja tão valioso.

Ficam, para mim, duas perguntas abertas: o coro existe para fazer música ou a música existe para sustentar o coro? E, o que mantém um coro de pé quando já não há concerto marcado?

Essas respostas nunca são definitivas. Mas é nelas que a vida coral se sustenta...




domingo, 11 de janeiro de 2026

Coral Acesita: um coro que também me formou

Cheguei ao Coral Acesita em 1992. Fui para lá a convite do Luciano Lima, substituindo Cristina Grossi, uma colega querida que precisou se afastar porque estava grávida. À época, eu não imaginava que aquele convite abriria um dos períodos mais marcantes da minha formação como regente e como pessoa.

O que posso contar aqui é o percurso que vivi entre 1992 e 2000. Antes e depois disso, há outras histórias, outros olhares. Mas esse recorte é meu e é nele que a memória se organiza.

O Coral Acesita não era apenas um coro ligado a uma empresa. Era um espaço de convivência intensa, de trabalho sério e, sobretudo, de pertencimento. Havia ali uma turma sensacional, gente comprometida, generosa, curiosa, disposta a aprender e a se arriscar junto. Ensaiar aquela turma não era apenas cumprir uma agenda: era estar junto deles em muitos sentidos.

Foram anos de muito fazer, de repertório construído com cuidado, de viagens, apresentações, encontros, de erros e acertos e de amadurecimento mútuo. Ali eu aprendi, na prática, que um coro se constrói tanto pelo som que produz quanto pelos vínculos que sustenta. Para todos eles, representar a Cia Acesita era mostrar pra quem quisesse o que era ser daquele lugar. De Timóteo.

O Acesita me ensinou algo fundamental: regência não é apenas condução musical: é escuta cotidiana, é leitura de grupo, é saber quando avançar e quando segurar, é entender que cada coro tem um tempo próprio, e que respeitar esse tempo não é fraqueza, é inteligência. Para além, éramos amigos e nos "divertíamos" muito sendo uma turma que crescia a cada dia para ser tornar um ótimo grupo.

Quando deixei o grupo, em 2000, saí diferente de como havia chegado. Não apenas mais experiente, mas mais consciente do tipo de músico e de regente que eu queria ser. Alguns aprendizados só acontecem assim: no convívio prolongado, no trabalho contínuo, na confiança construída ao longo dos anos.

Este texto é o começo dessa lembrança. Outras histórias virão. Outros nomes, outros momentos, outros repertórios. Mas o Coral Acesita ocupa um lugar muito claro na minha trajetória: foi um tempo de formação profunda, vivido com pessoas que fizeram daquele coro muito mais do que um projeto musical.

Foi um lugar de vida.

 

Grupo de pessoas posando para foto

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Quanto o tempo corre diferente: o Internacional Pop Rock 2026 (1)

Não sei medir um concerto pelo relógio. Sei que ele começa em determinada hora, que existe uma sequência de músicas, que cada arranjo tem ta...