quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

When You Believe - para um ano que começa por dentro

Chegamos ao dia 31. O último dia do ano sempre abre um espaço singular: um intervalo entre o que fomos e o que ainda não sabemos ser. É nesse território de passagem que escolho When You Believe, música de Stephen Schwartz para O Príncipe do Egito, que se tornou, ao longo do tempo, uma das belas canções que refletem bem a ideia de esperança possível, não a esperança ingênua, mas aquela que nasce depois do medo.

A canção começa reconhecendo um tempo difícil: muitas noites de oração sem resposta, uma canção esperançosa guardada no coração, quase incompreensível. É um retrato honesto de quem atravessa a vida sem garantias, sustentado apenas por algo que insiste em permanecer, mesmo quando tudo parece silencioso demais.

E então algo muda. Não porque o medo desapareça, mas porque se descobre que certas forças já estavam ali antes mesmo de sabermos disso. “Movíamos montanhas muito antes de sabermos que podíamos.” Há algo profundamente humano nessa constatação: a percepção de que resistimos, caminhamos e seguimos mesmo antes de entender a dimensão da nossa própria capacidade.

O refrão não fala de milagres espetaculares. Fala de algo mais discreto e mais verdadeiro: a esperança pode ser frágil, mas é difícil matá-la. E essa esperança abre espaço para a pergunta central da música: quem sabe que milagres você pode alcançar quando acredita? Não é promessa. É possibilidade.

Há um trecho, que eu acho especialmente bonito, quando o texto reconhece que os milagres nem sempre acontecem quando pedimos. Que é fácil se render ao medo. Que a dor pode nos cegar a ponto de não vermos um caminho seguro pela chuva. Ainda assim, permanece o pensamento de uma voz calma e resiliente dizendo que o amor está perto. Não distante. Perto.

E é aqui que When You Believe encontra o dia 31. Porque um ano novo não começa com promessas grandiosas, mas com esse gesto interno: acreditar apesar do medo, seguir apesar das dúvidas, reconhecer que algo em nós continua firme mesmo quando tudo parece instável. É isso!!!

A todos, eu desejo que o ano que chega traga essa fé tranquila; que a esperança, mesmo frágil, continue viva; que os pequenos milagres encontrem seu tempo; e que vocês reconheçam, em si, a força que talvez já estivesse ali antes mesmo de saber.

Feliz Ano Novo.
Que 2026 comece com a confiança serena de quem acredita e, por isso, se move.


Deixo pra vocês a escolha:

Uma versão coral:

🎹 WHEN YOU BELIEVE - words and music by Stephen Schwartz, arranged by Audrey Snyder

 

A versão clássica pop:

🎸 Whitney Houston, Mariah Carey - When You Believe (Official HD Video)


Ou as duas!!!


 Por do sol e mar

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 Um ótimo ano novo pra todos!!!

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ave Maria, de Bruckner: a imagem da mãe que sustenta

No Concerto de Música Sacra de 2009, a Ave Maria de Anton Bruckner ocupou um lugar especial no programa. Não apenas como obra de devoção, mas como um momento de recolhimento profundo, daqueles que organizam o silêncio da sala e o tempo interior de quem canta e de quem escuta.

A escrita de Bruckner é austera e delicada ao mesmo tempo. Não há ornamentos desnecessários, não há teatralidade. Tudo se constrói a partir de uma confiança quase absoluta no poder da harmonia lenta, das entradas cuidadas, da respiração comum. É uma música que não pressiona; ampara.

Em determinado ponto, justamente quando se nomeia o filho, Jesu, surge um forte, seguido da invocação Sancta Maria, como se ali o coro elevasse um clamor por proteção. O que vem depois, o ora pro nobis, retorna a um tom introspectivo e solene, quase como um recolhimento após o pedido. É como se, no cansaço, pedíssemos amparo a essa Mãe que nos observa de algum lugar e nos conduz, com delicadeza, para lugares melhores. Em Maria, Bruckner não convoca apenas a figura da mãe sagrada, mas algo mais amplo e profundamente humano: o arquétipo da mãe que protege, nutre, acolhe e cuida. A mãe como presença silenciosa, como porto seguro, como força que sustenta sem precisar se impor.

Às vésperas do Ano Novo, essa imagem ganha um peso especial. Depois de tudo o que atravessamos, individual e coletivamente, talvez seja disso que mais precisamos lembrar: do cuidado que não faz barulho, da proteção que não exige retorno, da ternura que permanece mesmo quando tudo parece instável.

Que esta música nos acompanhe neste dia 30 como um gesto de preparação interior. Para que o ano que se aproxima encontre em nós mais cuidado, mais escuta e mais capacidade de acolher, a nós mesmos e aos outros.

🎬 Ave Maria - Bruckner

 



Multidão de pessoas

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Exsultate Deo e a alegria que atravessa os anos

Exsultate Deo, de Alessandro Scarlatti, acompanhou boa parte da trajetória do Madrigale. Antes disso, ela era quase um hino para o Ars Nova e o Madrigal Renascentista, os coros de câmara decanos de BH. É uma daquelas peças que voltam naturalmente ao repertório, não por hábito, mas porque carregam algo que permanece vivo: clareza, vigor e uma alegria luminosa que organiza a sala de concerto desde o primeiro compasso.

Ao longo dos anos, cantamos essa peça inúmeras vezes em programas sacros, em turnês, em festivais. É uma obra que funciona como abertura e como afirmação. Scarlatti escreve com um entusiasmo controlado: linhas ágeis, imitação bem desenhada, harmonia transparente. Nada pesa. Tudo flui.

A gravação que compartilho aqui é de 2008, no nosso concerto de música sacra na Igreja da Boa Viagem. O coro vivia, naquele momento, uma fase muito sólida, com um som maduro e um senso de conjunto que se percebe nos ataques, nos planos dinâmicos e na energia que a peça exige. É um registro que guardo com carinho e orgulho, não apenas pelo resultado musical, mas pelo espírito do grupo naquele período.

Revisitar Exsultate Deo no fim de dezembro é quase simbólico: uma música de exultação suave, que aponta para a alegria como caminho. Depois do Natal e antes do Ano Novo, ela funciona como um intervalo claro: uma peça que abre espaço para respirar, reverenciar e seguir.

Fica aqui a gravação de 2008. 🎬 Exsultate Deo - Scarlatti

 

Multidão de pessoas

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domingo, 28 de dezembro de 2025

The Battle of Jericho (Virtual) - cinco anos depois, ainda derrubando muralhas

Em novembro de 2020, quando gravamos esta versão virtual de The Battle of Jericho, o mundo era outro. Estávamos sem vacinas, sem encontros presenciais, tentando manter alguma normalidade em meio a incertezas diárias. E no texto que acompanhava o vídeo, escrevemos: 

“Estamos chegando ao fim de 2020 com nossas trombetas a postos para derrubar as muralhas que ainda restam.”

Era exatamente isso: um tempo de sobrevivência, mas também de crença no que viria.

O arranjo de Moses Hogan para este spiritual tradicional carrega essa força simbólica: a ideia de que uma comunidade que canta junto, mesmo separada fisicamente, pode mover estruturas. Cinco anos se passaram. As muralhas daquele tempo ficaram para trás, outras surgiram no caminho: internas, externas, visíveis ou silenciosas. E seguimos, como sempre, construindo pontes pela música e aprendendo a reconhecer o que precisa cair para que algo novo possa nascer.

Hoje, a memória do vídeo me lembra da capacidade de resistir, mas também da coragem de escolher o que não faz mais sentido sustentar. Às vésperas de um novo ano, revisitar The Battle of Jericho é perguntar a mim(nós) mesmo(s): quais muralhas ainda precisam ser derrubadas para que o próximo tempo seja mais leve, mais justo, mais verdadeiro?

Apreciem novamente. E sigamos atentos, firmes e dispostos ao movimento.

 

🎬 Coro Madrigale - The Battle of Jericho

 



 

sábado, 27 de dezembro de 2025

O CMI e seus corais: música que acompanha o crescimento (por Jéssica Martelli)

(Post escrito por Jessica Martelli)

O CMI (Centro de Musicalização Integrado) é um órgão complementar da Escola de Música da UFMG, localizado no Campus Pampulha. Atua de forma integrada com docentes, discentes e técnicos administrativos, tendo a música como ferramenta central para a educação e o desenvolvimento humano.

Criado em 1985 pela professora Tânia Mara Lopes Cançado, o então Centro de Musicalização Infantil surgiu como um projeto de extensão da Escola de Música da UFMG. Ao longo dos anos, especialmente após a Lei nº 11.769/2008, que tornou obrigatório o ensino de música na educação básica, e com a criação do Curso de Licenciatura em Música Noturno em 2009, o CMI ampliou seu escopo e passou a contribuir de forma mais direta na formação de professores de música.

Esse processo fortaleceu a integração entre ensino, pesquisa e extensão, consolidando novas linhas de atuação. Em 2014, o CMI tornou-se oficialmente um órgão complementar da Escola de Música. Hoje, desenvolve ações nas áreas de docência, extensão e pesquisa, além de promover eventos científicos, artísticos e culturais.

 

Os Corais

Os corais Coralitos e Música para Todos são ações de extensão do Projeto Música para Todos, da Escola de Música da UFMG, e estão em atividade contínua desde 2010. Nesse período, já atenderam cerca de 1.000 crianças e adolescentes.

O ingresso é gratuito e ocorre anualmente em janeiro, mediante formulário disponível no site do CMI.

O Coralitos reúne 41 crianças entre 7 e 11 anos, com permanência média de 1 a 4 anos. Entre o terceiro e o quarto ano, os alunos são gradualmente encaminhados ao coro de adolescentes, garantindo a continuidade da formação musical.

O Música para Todos conta com 37 adolescentes entre 11 e 19 anos, com permanência que pode variar de 1 a 7 anos.

 

A gravação

No dia 9 de novembro de 2024, os dois corais viveram uma experiência especial: participaram de uma gravação profissional realizada pela equipe do professor Lucas Telles, no auditório da Escola de Música da UFMG.

Desde o início, o clima era de entusiasmo. As crianças do Coralitos chegavam curiosas, perguntando quando o CD ficaria pronto. Os adolescentes do Música para Todos demonstraram grande envolvimento e maturidade, contribuindo com foco e responsabilidade em cada etapa. Toda a equipe celebrava a realização desse momento tão aguardado.

Foram selecionadas as músicas mais bem ensaiadas e mais queridas pelos alunos. Durante as gravações, era preciso manter concentração absoluta: a cada take, todos permaneciam imóveis até receber o “ok” da equipe técnica. Mesmo com o calor e o tempo prolongado, os adolescentes mantiveram a seriedade, fortalecendo o sentimento de pertencimento ao grupo.

No final, apesar do cansaço e de algumas dores de cabeça relatadas pelas crianças, o sentimento geral era de missão cumprida. No ensaio seguinte, muitos contaram como viveram a experiência: alguns disseram que valeu a pena, outros perguntaram novamente sobre o lançamento do CD, e houve quem comentasse com alegria que a família comemorou com sanduíche e sorvete depois da gravação.

Foi um momento marcante, cheio de aprendizado, dedicação e emoção, que ficará guardado com carinho por todos os participantes.

 

O tão esperado CD digital

Depois de muita preparação, o CD digital finalmente se tornou realidade. O álbum ficou pronto no dia 12 de dezembro de 2025 e foi lançado oficialmente no dia 13, durante a apresentação de encerramento do semestre. A celebração reuniu crianças, adolescentes, pais e responsáveis — todos orgulhosos do resultado.

O álbum recebeu o nome Onde os sonhos acontecem, título que traduz a essência do projeto. A capa e o nome foram criados por Dafyne Vitória Olympio Barçante, adolescente do Música para Todos. Dafyne entrou no CMI aos 4 meses de idade e, hoje, aos 15 anos, representa a trajetória de crescimento e pertencimento que o CMI oferece. Sua participação torna o CD ainda mais especial, reafirmando que ali, de fato, os sonhos acontecem.

Quer ouvir o disco? Aqui está:

🎧 (1) Onde Os Sonhos Acontecem: CORAIS CORALITOS E MÚSICA PARA TODOS - YouTube




Coralitos



Música para Todos






Jéssica Martelli é Mestre em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pesquisa na área de Educação Musical (2023–2025), e licenciada em Música pela mesma instituição (2016–2021). Possui experiência como professora de música na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I, o que contribuiu para a construção de uma prática pedagógica voltada ao desenvolvimento musical na infância. Integra o grupo de pesquisa Música, Cognição e Desenvolvimento Humano (MUSICOG/CNPq), dedicando-se a estudos que articulam música, cognição e desenvolvimento humano. Atua como regente dos corais infantil e infantojuvenil no projeto de extensão da Escola de Música da UFMG, função exercida entre 2020 e 2025, contribuindo para a formação artística e musical de crianças e adolescentes.






sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Heal the World - a mensagem do Natal continua

No dia 25, Natal, celebramos a luz, a ternura e a harmonia. No dia 26, começamos a nos perguntar o que fazer com tudo isso. O que fazemos com a paz depois do Natal? Onde colocamos essa esperança quando o mundo volta ao ritmo habitual?

Pensando nisso, resolvi trazer, hoje, o Heal the World, na versão que gravamos com o Madrigale Internacional. A música de Michael Jackson nasceu de um desejo simples e profundo: lembrar que a mudança não começa nos grandes movimentos, mas nos pequenos gestos; que “curar o mundo” não é uma metáfora distante, mas uma prática cotidiana de cuidado, empatia, justiça e presença.

Quando se canta essa peça, seja onde for, as vozes se somam como se dissessem a mesma frase em diferentes idiomas internos. Não importa a origem, o sotaque, o país, a mensagem passa pelo mesmo ponto: a necessidade de construir um espaço mais amável para todos. E depois do Natal, o espírito de nascimento continua, agora como responsabilidade. A canção diz: “Make a little space, make a better place.” Crie um pequeno espaço, faça dele um lugar melhor. É quase um resumo do dia 26: não grandiosidade, mas continuidade. Não espetáculo, mas cuidado.

Que esse pós-Natal nos lembre que paz não é só sentimento: é trabalho interno, é escuta, é escolha diária. E que cada um pode, à sua maneira, ampliar um pouco o mundo à sua volta, seja com um gesto, uma palavra, uma delicadeza que muda um dia inteiro. 

Que a música nos acompanhe também agora, quando o Natal já se recolhe e deixa no ar apenas a parte mais importante: aquilo que ainda pode ser transformado. Sigamos curando o mundo, devagar, mas juntos.

🎬 Madrigale Pop Internacional – 09. Heal the World

 

Uma imagem contendo água, homem, pintura, andando de

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

White Christmas - para que a luz encontre um lugar em nós

25 de dezembro. O dia chega sempre com um tipo de claridade que não está no céu, mas está no coração. É uma data que não pede explicação: ela simplesmente pousa, como neve imaginada num país que não neva, como um sopro antigo que nos visita todos os anos, mesmo quando não sabemos exatamente o que esperar.

Eu sempre penso que o White Christmas funciona bem como trilha desse dia. Não porque evoque paisagens que não são nossas, mas porque fala de algo que conhecemos profundamente: o desejo de um Natal que se pareça com o que a alma espera. O desejo de um pequeno tempo de calma, de uma memória que se acende, de um futuro que se aproxima com luz, mesmo que suave. Início de um período de reflexão sobre o que foi, o que é e o que virá.

Há um trecho na canção que diz: “May your days be merry and bright.” 'Que seus dias sejam alegres e brilhantes.' Simples assim. Uma frase curta, mas que contém tudo: afeto, desejo de bem, cuidado, presença. Hoje, mais do que qualquer outro dia, deixo que essa frase ecoe. Porque o Natal é isso: um acordo silencioso de que a vida pode ser mais leve, mesmo que por um instante. É a lembrança de que o mundo continua difícil, mas também continua belo. É o reencontro com quem somos quando o barulho diminui. É a possibilidade, ainda que pequena, de voltar a acreditar.

Que o seu dia 25 tenha exatamente isso: luz suficiente para seguir, alegria possível, memória boa, e um brilho discreto que se acende por dentro. Que haja paz na sua mesa, no seu canto, na sua família, nos seus passos. E que seus dias, hoje e sempre, possam ser “merry and bright”.

Feliz Natal de novo!!!  E como a Lívia gosta muito de Doramas, e eu também, vou oferecer a ela essa interpretação da canção feita por um coro... coreano.

🎅 [Gracias Choir] I.Berlin : White Christmas / Jihyuk Shin, Eunsook Park


 



 

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Noite Feliz - Feliz Natal!!!

Noite Feliz sempre esteve presente nos meus concertos de Natal. Ao longo de muitos anos, essa peça fechou programas e uniu vozes e plateias. O arranjo que usamos é do músico belorizontino Lincoln Meirelles, originalmente escrito para orquestra. Adaptei-o para piano há bastante tempo, e foi essa versão que o Madrigale cantou vários Natais.

O vídeo abaixo vem da produção feita em 2020, no Concerto Virtual de Natal do Coro Madrigale. Cada cantor gravou de casa: alguns se arrumando para o “concerto”, outros decorando a sala, preparando a mesa, cuidando de pequenos rituais. Imagens simples, humanas, que mostravam o que todos vivíamos naquele dezembro, a tentativa de preservar um momento mágico mesmo à distância. 

Aqui, longe do Brasil, o vídeo me alegra e me faz presente, como naquela época. E, nesta véspera de Natal, só posso desejar que a música acompanhe sua noite com a mesma delicadeza com que sempre acompanhou a minha. Que haja harmonia na sua casa, brilho no  seu olhar e renovação no seu coração. Que o nascimento que celebramos, tão simbólico e tão profundo, reacenda em cada um a coragem de amar, de recomeçar, de enxergar luz mesmo onde ela parece pequena.

E que sua Noite Feliz seja exatamente isso: feliz, e cheia de presença, de ternura e de alegria possível.

Feliz Natal!!!

🎅 Coro Madrigale - Noite Feliz

 

Uma imagem contendo mesa, água

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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal Verde Amarelo

Às vésperas do Natal, depois de percorrer obras do repertório internacional, escolho uma canção que olha diretamente para nós: Natal Verde Amarelo, marcha-rancho do Trio Alvorada, gravada em 1960. Uma daquelas lindas canções que o tempo carregou para longe, mas que vale a pena trazer de volta.

A música desenha um Natal com cara brasileira, sem filtros estrangeiros, ou seja, um dezembro quente, sinos nas igrejas (hoje, nem tanto mais), família reunida, ceia com café, vatapá e caruru (se fosse em Minas, ia ter pão de queijo, bolo, pão com manteiga, ovo frito ou cozido...), e não com o peru importado das paisagens que não são nossas. É um retrato simples, direto e afetivo de um país que celebra, ou deveria celebrar, com aquilo que é seu. O refrão insiste numa imagem que seria ótimo vermos: um Papai Noel de verde e amarelo, chegando de chinelo, deixando como presente não brinquedos, mas o “orgulho de ser brasileiro”. 

Há uma ingenuidade bonita nisso tudo, um desejo de pertencimento que marcou parte da produção musical dos anos 1960. Hoje, eu penso que a gente deveria era trocar o bom velhinho por São Cosme e São Damião, ou por um(a) Preto(a) Velho(a) com sorriso de amor intenso, ou uma Iara, Mãe d'Água, despejando emoções mil... mas eu já desisti de ver isso na minha geração. Quem sabe na próxima? Enquanto isso, vamos de verde e amarelo e farofa e caipirinha, o que já é muito bom. 

Para quem quiser conhecer ou relembrar, deixo aqui esta pequena joia. Coisas que o tempo levou, mas que ainda iluminam. A canção é leve, fácil de cantar, e carrega aquela atmosfera de rua, de coreto, de Natal vivido nas cidades e no interior, sob o Cruzeiro do Sul. Um Brasil musical que existiu, e que às vezes faz falta. 

Feliz Natal (Brasileiro).

🎬 Trio Alvorada - NATAL VERDE AMARELO - marcha-rancho de Wilma Camargo - 1960

 

 Desenho de personagem de desenho animado

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Have Yourself a Merry Little Christmas — Um gesto que retorna ao presente

No melhor espírito de Natal, trago hoje um vídeo especial do Madrigale. Foi feito em 2020, seguindo uma ideia dos cantores para uma das partes do Concerto de Natal Virtual que estávamos produzindo: cantar juntos, mesmo quando as circunstâncias exigiam distância. 

Num ato de coragem e vontade, quatro dos cantores se reuniram ao ar livre, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, todos testados antes da gravação, num tempo em que ainda não havia vacina. Era a forma possível de estar presente, e de manter viva a tradição de nosso Concerto de Natal.

Rever este vídeo hoje é reencontrar um desejo simples: que o Natal seja leve, que o coração encontre espaço, que as pessoas queridas se aproximem, seja fisicamente ou pela intenção. A letra de Have Yourself a Merry Little Christmas diz exatamente isso.

Que este canto, feito em tempos difíceis, mas cheio de esperança, acompanhe o seu Natal de hoje.


🎬 Coro Madrigale - Have yourself a merry little christmas

 

Texto

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Solistas: Clara Guzella; Aline Magalhães; Gustavo Fonseca; Gasparo Boschi

Produção e edição de vídeo: Fred Aflalo


Have Yourself a Merry Little Christmas

(Hugh Martin / Ralph Blane · arr. Pete Schmutte)

Tradução livre:

Tenha para si um pequeno e feliz Natal,

que seu coração fique leve.

A partir de agora, nossos problemas

ficarão fora de vista.

Tenha para si um pequeno e feliz Natal,

que este tempo se encha de alegria.

A partir de agora, nossos problemas

ficarão a muitos quilômetros daqui.

Aqui estamos nós, como nos velhos tempos,

dias dourados e felizes de outrora.

Amigos leais, tão queridos,

se reúnem perto de nós outra vez.

Ao longo dos anos estaremos juntos,

se o destino permitir.

Coloque uma estrela brilhante

no galho mais alto.

E tenha para si,

um pequeno e feliz Natal agora.



domingo, 21 de dezembro de 2025

Alleluia — Randall Thompson e o silêncio que se transforma em oração

Entre tantas memórias fortes do Madrigale, a gravação ao vivo do Alleluia, de Randall Thompson, na Igreja da Boa Viagem em 2009, permanece uma das mais significativas. É uma peça que engana à primeira vista: um “Aleluia” que não exulta, não celebra, não louva. 

Thompson escreveu essa obra em 1940, logo após a ocupação nazista da França, quando o futuro parecia incerto e sombrio. Encomendado por Serge Koussevitzky para ser uma fanfarra vocal de abertura do novo Berkshire Music Center, o compositor recusou a grandiosidade esperada. Seu gesto foi outro: oferecer uma oração. Ele afirmou que não conseguiria escrever nada festivo diante do que o mundo vivia naquele momento. O resultado é essa página lenta, meditativa, construída quase toda em dinâmica contida, como se cada acorde buscasse espaço para respirar.

Essa foi a minha busca constante no entendimento da interpretação da peça, e quando publicamos a gravação do Madrigale, alguns comentários chamaram atenção justamente por reconhecerem essa intenção original. Um deles dizia: “a única performance desta peça no YouTube no espírito lento e contemplativo que Thompson pretendia.” Outro acrescentava: “todas as performances de coros americanos passam voando por essa peça... esta é a primeira abordagem meditativa.”

Essas observações tocam num ponto importante: o Alleluia não é um grito; é um recolhimento. É uma música que exige escuta e tempo. A escolha por um andamento mais lento, mais refletido, não é um capricho interpretativo, mas um retorno ao que Thompson expressou em cartas e depoimentos sobre a obra.

Revisitar essa gravação hoje é lembrar que algumas músicas só revelam sua força quando renunciam ao brilho. O Alleluia é uma dessas. Não celebra a vitória; apenas sustenta a esperança: silenciosa, frágil, mas presente. E talvez seja por isso que essa interpretação, feita há tantos anos na Boa Viagem, ainda encontre ressonância. Porque, às vezes, aquilo que mais precisamos é justamente um Aleluia... que caminha devagar.

 

🎬 Alleluia - Thompson

 

Grupo de pessoas em frente a janela

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sábado, 20 de dezembro de 2025

Et Misericordia - John Rutter e a doçura de um gesto silencioso

Faltando alguns dias para o Natal, época que gosto por demais, resolvi selecionar algumas peças que sempre escuto neste período. Uma maneira simples de provocar a lembrança desse tempo bom, mágico, cheio de espírito e ternura. E começo por um movimento que sempre me acompanhou nos concertos natalinos, seja apresentando o Magnificat inteiro ou como peça avulsa no programa: o Et Misericordia, do Magnificat de John Rutter.

O que dizer desse movimento? Há algo profundamente humano ali. A linha melódica é clara, quase  transparente, e a harmonia se organiza para dar espaço à palavra que sustenta a peça inteira: misericórdiaEntre todas as partes da obra, esta talvez seja a mais íntima. 

Rutter escreve aqui uma música que respira. A solista canta como quem recita um mantra-oração, centrada no texto e na intenção, numa peça que parece ter sido feita para esse tipo de entrega. O coro não se expande em nenhum momento: caminha junto, sustenta, acolhe, como um tapete harmônico que permite à solista dizer o essencial. A peça é isso tão somente.

Às vésperas do Natal, o Et Misericordia funciona quase como um ponto de silêncio entre tantas urgências. Uma pausa breve, mas necessária, para lembrar que o sentido da celebração passa também pelo que é simples, discreto e constante.

Fica a sugestão: ouçam o Et Misericordia com calma, pois há misericórdias que só se revelam devagar.

Ao longo dos anos, várias solistas me emocionaram profundamente ao cantar essa peça: Clara Guzella, Emanuelle Cardoso, Núbia Eunice, Camile Monteiro.. mas hoje compartilho aqui o vídeo de 2016, quando o Madrigale fez um lindo concerto na Igreja da Boa Viagem e a Manu se superou na interpretação. Ao piano: Patrícia Valadão.

  

🎬John Rutter Magnificat - Et Misericordia  - Coro Madrigale - Concerto de Natal 2016

 

Multidão de pessoas

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

In My Life (Madrigale Virtual)

Das muitas memórias que tenho dos vídeos produzidos com o Madrigale em 2020, tempo de pandemia, In My Life ocupa um lugar especial. Foi gravado no auge das restrições, quando a sala do coro, sempre cheia de vozes, conversas e afetos, ficou reduzida ao silêncio. No vídeo, um dos cantores (Leandro Braga) vai até lá: a porta se abre, o rangido ressoa, e as cadeiras vazias dizem tudo. Só quando a câmera encontra o piano é que a música começa, agora cantada de longe, cada um no seu canto, mas ainda juntos. E assim a música se faz.

Foram tempos em que cada rotina virou um mundo próprio: alguém se arruma como se fosse para um concerto, outro prepara o café, outro estuda a partitura, alguém rega plantas, outro apenas olha a paisagem. Pequenos gestos que, somados, revelam o que a pandemia nos obrigou a aprender: cantar sem compartilhar o mesmo ar, sentir sem poder abraçar, manter o coro vivo mesmo sem presença física.

O arranjo de John Wiggins, o piano de Hely Drummond e a canção dos Beatles, tão marcada pela memória e pelo afeto, encontraram ali um espaço natural. Cada cantor gravou no seu tempo, no seu ambiente, mas o resultado foi um só, um coro que se recusou a deixar a distância calar o que nos unia.

Esse vídeo é, no fundo, um lembrete de que muitas das coisas que amamos ficaram suspensas naquele período, mas não desapareceram. Esperaram, como nós. E voltaram. 

Para quem quiser rever esse respiro de 2020, deixo aqui o vídeo.

🎬 In my life, Beatles - Coro Madrigale

 

Homem ao lado de vaso com flores

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O som em meio ao caos (por Weberson Almeida)

Maestros são formados para parecer indestrutíveis: inerrantes, infalíveis, acima de qualquer problema. Desde cedo, aprendemos a ter sempre um plano A, B ou C, porque a música não pode parar; o público não espera. Supõe-se que estejamos acima das fragilidades da saúde e imunes aos conflitos pessoais. Ensina-se a engolir o choro nas tristezas, a ignorar o luto, a superar frustrações, conflitos familiares e dilemas íntimos — sobretudo o nosso maior adversário: nós mesmos.

Somos preparados para superar a dor, o corpo, a mente e suas limitações. Tornamo-nos, aos olhos de muitos, deuses da música. É isso que o público imagina. É nisso que somos levados a acreditar. Mas isso não corresponde à realidade.

A pergunta central permanece: o que fazer quando somos confrontados por situações adversas? Não há aulas para isso. Não existe preparação formal para esses momentos. O que fazer quando é preciso fazer música em meio ao caos?

Há o caos dos problemas pessoais e familiares, que precisam ser silenciados para que se consiga sair de casa, enquanto o palco da mente se divide entre mais um espetáculo e um conflito matrimonial não resolvido. Há o caos dos transtornos psicológicos, que chegam sem aviso prévio, dominam corpo e mente e revelam, de forma brutal, que não temos controle algum. Diante do público, o corpo trava; instala-se um silêncio sepulcral na plateia, à espera de um som magnífico que não acontece. E resta apenas voltar para casa, em desespero, sem saber o que fazer.

Há ainda o caos de receber, como um golpe no peito, a notícia da morte de alguém que se ama e, mesmo assim, subir ao palco para executar uma missa de Réquiem. Um nó na garganta, lágrimas contidas, pernas bambas. Ao fim do concerto, não vêm os aplausos — apenas a dor e a saudade que finalmente transbordam.

Há o caos de ter um filho com um grave problema no coração, a esposa prestes a dar à luz, ambos em risco, e não poder estar presente de forma plena porque há concertos de Natal a cumprir. São muitos os exemplos, e falo com propriedade: são reais. Eles nos despertam do sonho utópico da perfeição no qual fomos inseridos e nos obrigam a reconhecer que não somos deuses. Estamos muito longe de controlar tudo e todos. Não sabemos o que o futuro reserva, e talvez a única coisa que nos sustente seja a música.

Mas não a música dos palcos, envenenada pela obsessão do belo e do perfeito. Não a música contaminada pela política interna de instituições que, de maneira imoral, substituem a arte pela troca de favores. Não a música que ignora o ideal de uma arte para todos e privilegia a elite de uma sociedade seleta, isolada em um universo paralelo à dura e complexa realidade social contemporânea.

Falamos de outra música. A música que não ignora o ser humano por trás da performance. A música que nasce de dentro do peito, irradia do coração e alcança os ouvidos da alma. Aquela que nos ajuda a reconhecer, com honestidade, quem realmente somos.

Quando essa música consegue se externalizar, ela emociona porque nos desnuda diante dos ouvintes. Ela só existe quando é feita em respeito à nossa humanidade, às nossas fragilidades e limitações.

Por mais difícil que seja admitir, por trás da música existe o músico. E ele é frágil.



Weberson Almeida é Mestre e Bacharel em regência pela Universidade Federal de Minas Gerais; ⁠Pós-graduando em Filosofia e Sociologia pela faculdade Líbano / SP; ⁠Professor titular do Seminário Presbiteriano de Belo Horizonte; ⁠Regente titular do Coro Masculino da Primeira Igreja Presbiteriana, Coro Nova Jerusalém, Coro Presbiteriano Itatiaia; e ⁠Regente Assistente do Coro Madrigale de Belo Horizonte

 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

1956 - o início de um Madrigal

Neste post, falarei pouco. Quero apenas convidá-los, especialmente os belorizontinos, a olhar algumas fotos de um grupo de jovens dos anos 1950 que ousou criar um dos maiores conjuntos corais do Brasil: o Madrigal Renascentista.

  

Foto em preto e branco de grupo de pessoas posando para foto

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Cantoras fundadoras do Madrigal Renascentista:  
Da esquerda para a direita: Carmen Lúcia Gomes Batista; Clementina Lima Costa; Maria Lúcia Godoy;
Yeda Prates Octaviani Bernis; Norma Augusta Pinheiro Graça; Ana Maria Godoy;
Alda Perilo; Lúcia Amélia Prates; Lucíola Teixeira de Azevedo;
Maria Amélia Martins, Maria Amália Martins e Terezinha Miglio. (Acervo Madrigal Renascentista)

Foto em preto e branco de grupo de pessoas posando para foto

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 Cantores da formação inicial do Madrigal Renascentista:
Da esquerda para a direita: Talita Pinto Fonseca; Yeda Bernis; Norma Augusta Pinheiro Graça;
Waldemira Oliveira; Alda Perilo; Ana Maria Godoy; Lúcia Amélia Prates;
Carlos Eduardo Prates; Isaac Karabtchevsky; Nélio Abreu; Maria Lúcia Godoy;
Terezinha Miglio; Pitucha Godoy; Hipácio Guimarães; Fábio Lúcio Martins (encoberto);
Maria Amália Martins; Maria Amélia Martins; Carlos Alberto Pinto Fonseca; 
Lucíola Teixeira de Azevedo. (Acervo Madrigal Renascentista)

 

Quer saber mais sobre essa história? 📕 Livro O Coro do Brasil


 Texto preto sobre fundo branco

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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

New Dublin Voices — Uma descoberta recente que merece atenção

Entre as boas descobertas que fiz nessas semanas, encontrei o New Dublin Voices, um coro irlandês fundado em 2005 e que rapidamente se firmou como um dos conjuntos mais refinados da cena coral europeia. A primeira impressão já diz muito: um som limpo, organizado, com afinação exemplar e uma atenção constante ao texto. 

Mas, o que mais me chamou minha atenção foi a capacidade de transitar entre repertórios muito diferentes sem perder identidade. A mesma coerência aparece tanto em Victoria quanto em Stanford, ou em arranjos contemporâneos de tradição celta. A estética do coro é definida: transparência, equilíbrio e escolhas interpretativas sempre muito conscientes.

Deixo aqui três vídeos que representam bem esse universo sonoro e que foram, para mim, a porta de entrada:

 🎧 It Don't Mean a Thing by Duke Ellington, arr. by A. Edenroth. NEW DUBLIN VOICES at IBSCC 2025 GPC

Homem de terno e gravata e pessoas ao fundo

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🎧 New Dublin Voices - "Blackbird/I Will" arr. Rathbone

Grupo de pessoas posando para foto

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🎧 New Dublin Voices - "Wade in the Water" by Allen Koepke

Pessoas de terno e gravata

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E para quem quiser explorar mais: 🔗 Página oficial: https://www.newdublinvoices.com


 

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Rebecca Dale: Uma Compositora Precoce

Descobrir The Cloths of Heaven me levou inevitavelmente ao nome por trás da obra: Rebecca Dale, compositora britânica que, apesar da juventude, já ocupa um lugar relevante na música coral e sinfônica contemporânea. Seu trabalho chama atenção pela forma como transforma poesia e afetividade em textura sonora.

Nascida em 1985, em Londres, começou a compor muito cedo e estudou em Oxford. Transita entre a música de concerto e a composição para cinema, sempre com uma escrita tonal, clara e emocionalmente direta. Sua linguagem combina delicadeza, narrativa e uma compreensão precisa da voz humana.

Em 2018, tornou-se a primeira compositora mulher a assinar com a Decca Classics. Seu álbum Requiem for My Mother alcançou o topo das paradas clássicas britânicas. Desde então, sua música vem sendo interpretada por orquestras e grupos como a Philharmonia, a Royal Liverpool Philharmonic, o London Mozart Players e o Voces8, que difundiu The Cloths of Heaven.

Além do repertório coral, Dale atua intensamente no audiovisual, compondo para BBC, Disney, Working Title e Sky. Em 2023, uma obra sua foi escolhida para a coroação do Rei Charles III, um indicativo da amplitude de seu trabalho.

Conhecer Rebecca Dale é perceber que a música contemporânea pode ser profunda sem ser hermética. Sua escrita trata o íntimo com seriedade e o simples com respeito. Talvez, por isso, soe tão bem.

Se tiverem curiosidade, visitem a página dela em: HOME | Rebecca Dale


E mais uma peça para ouvirem: 🎬 Rebecca Dale: Panis angelicus – Reimagined

 





 

 


domingo, 14 de dezembro de 2025

Uma nova descoberta: The Cloths of Heaven, de Rebecca Dale

The Cloths of Heaven, de Rebecca Dale. Essa é mais uma descoberta que me pegou desprevenido. Encontrei a peça por acaso no YouTube, na interpretação do Voces8, e imediatamente reconheci ali uma delicadeza que merece ser compartilhada.

A música me levou ao poema original de William Butler Yeats, Aedh Wishes for the Cloths of Heaven. Trata-se de um texto curto sobre amor, humildade e entrega. O eu-lírico começa oferecendo “os tecidos do céu”, bordados de ouro e prata, mas logo admite que não os possui. O que tem, e o que oferece, são seus sonhos, colocados aos pés da pessoa amada, com o pedido para que ela pise leve. Lindo por si só.

Na peça, o poema ganha corpo: a leveza dos versos vira textura vocal; a simplicidade do gesto se traduz em tessituras acessíveis e em frases que exigem atenção ao detalhe e ao respiro coletivo. Não é um canto de ostentação, mas um canto de cuidado. É uma música que convida à escuta interna, ideal para coros que trabalham expressividade e precisão, e, por isso, imagino que funcione bem em formações diversas, inclusive coros com vozes mais maduras, em que a musicalidade depende mais da intenção do que da virtuosidade. 

O que mais me impressionou foi a coerência entre poema e música. Assim como Yeats oferece seus sonhos, Dale oferece à voz um espaço para entregá-los também, com simplicidade e sobriedade. É uma obra curta, luminosa, e que diz muito, mesmo dizendo pouco. Exatamente como os bons poemas, e as boas músicas, costumam ser.

Para acompanhar o post, deixo aqui a gravação que ouvi, e que recomendo: Voces8 – The Cloths of Heaven (Rebecca Dale)

🎬 https://www.youtube.com/watch?v=UPhb0OYVeGw

  



 The Cloths of Heaven

William Butler Yeats

Had I the heavens' embroidered cloths

Enwrought with golden and silver light

The blue and the dim and the dark cloths

Of night and light and the half-light,

 

I would spread the cloths under your feet:

But I, being poor, have only my dreams;

I have spread my dreams under your feet;

Tread softly because you tread on my dreams.

 

Tradução livre:

Os Tecidos do Céu

William Butler Yeats

Se eu tivesse os tecidos bordados do céu,

Tramados com luz dourada e prateada,

Os tecidos azuis, tênues e escuros

Da noite, da luz e da meia-luz,

 

Eu estenderia esses tecidos sob os seus pés;

Mas eu, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;

Estendi meus sonhos sob os seus pés;

Pisa suavemente, pois pisas nos meus sonhos.

 


sábado, 13 de dezembro de 2025

Riu Riu Chiu - Viva Amin Feres!!!

Ouvir Riu Riu Chiu na apresentação do Coro da Nova, dias atrás, foi como abrir uma janela para o passado. A peça, um villancico (canção natalina tradicional em espanhol) anônimo do Cancionero de Upsalla (1556), é conhecida pelo seu caráter rítmico, pelo refrão onomatopaico e pela ligação direta com o repertório natalino ibérico do século XVI. 

Mas, para mim, ela carrega também um significado muito particular: foi uma das obras marcantes do repertório do Madrigal Renascentista, especialmente nos primeiros anos do grupo sob a direção de Isaac Karabtchevsky. O Madrigal cantou Riu Riu Chiu repetidas vezes, e, naquele período inicial, o solo era interpretado por uma figura que deixou marca profunda no canto coral e na música brasileira: Amin Feres.

 

Amin Feres (1934–2006) foi um dos grandes nomes da música vocal no Brasil no século XX. Barítono-baixo de timbre firme e presença marcante, atuou intensamente como solista em obras sinfônicas e camerísticas. Foi professor da Escola de Música da UFMG e formou gerações de cantores.

Sua atuação com o Madrigal Renascentista, ainda jovem, compõe um capítulo importante da construção estética do grupo. Amin tinha exatamente o tipo de voz que dá corpo ao estribilho de Riu Riu Chiu: firme, rítmica, estilisticamente apropriada ao caráter popular-renascentista do villancico, e capaz de sustentar o colorido percussivo da linha vocal.

Ao ouvir a peça com o Coro da Nova, a memória veio inteira: o timbre do Amin, a condução de Karabtchevsky, e aquela maneira muito particular que o Madrigal tinha de lidar com repertórios ibéricos: com clareza, energia e rigor estilístico.

 

Riu Riu Chiu é um exemplo típico da circulação musical do século XVI: recolhido no Cancionero de Upsalla; composto anonimamente na tradição espanhola; e reinterpretado séculos depois por coros de todo o mundo. Ou seja: uma peça que atravessa geografias e gerações.

Karabtchevsky e o Madrigal tiveram papel importante em introduzir esse repertório ao público brasileiro, e o solo de Amin, sempre bem-humorado, ritmado e seguro (como ele era), consolidou a obra no imaginário do grupo. Faz parte daquela memória que, à distância, se torna ainda mais nítida.

Para ilustrar esta lembrança, incluo uma gravação histórica do Madrigal Renascentista cantando Riu Riu Chiu, com o solo de Amin Feres. Não é apenas um registro musical: é um documento afetivo e estético de um momento fundamental na trajetória do coro. Apreciem:

🎬 Madrigal Renascentista - Riu, riu, chiu (1959)

 


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Encontro de Corais do NMC (final): Música Como Comunidade

(Por Bambis e Arnon Oliveira)

Encerramos esta série sobre o Encontro de Corais do NMC com uma reflexão que atravessa tudo o que vivemos naquele domingo: o papel do Núcleo como espaço de formação, pertencimento e comunidade.

O NMC nasce de uma premissa simples e profunda: oferecer à universidade e à cidade um ambiente em que pessoas possam cantar, aprender e se reconhecer por meio da música coral.

O encontro mostrou isso com nitidez. Cada coro, Litterarum, Engenharia e FALE, trouxe ao palco sua identidade, seu percurso e sua maneira de viver a música. E, ao fazê-lo, evidenciou que o NMC não é um projeto isolado: é uma rede de relações que se fortalecem a cada ensaio, a cada apresentação, a cada gesto de cuidado entre os grupos. A plateia respondeu da mesma forma. Participou, cantou, ouviu, integrou-se ao ambiente artístico que se formou. A música, ali, não era espetáculo distante: era convivência.

E talvez por isso a imagem final de “Noite Feliz”, cantada por todos, tenha sido tão marcante. Coros misturados, vozes entrelaçadas, ausência completa de fronteiras entre grupos. Um único corpo vocal ocupando o palco, não como demonstração técnica, mas como demonstração de comunidade.

Para nós, que trabalhamos diariamente para sustentar o NMC, aquele instante sintetizou algo fundamental: quando a música encontra pessoas dispostas a partilhar, ela se torna maior do que qualquer grupo. É esse espírito que desejamos cultivar.

E é por isso que seguimos: para que encontros como este continuem sendo possíveis, transformadores e acessíveis a todos.

Ah! E aqui só falamos de 3 coros que constituem o NMC. Com o passar do tempo, nos verão falando dos demais, pois novos eventos já estão programados. Até lá!!! 



Ah 2!!! E pra quem não conhece a Bambis...



E, aqui, o Noite Feliz:






 


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Encontro de Corais do NMC (4): Coral da FALE - A Força de uma Comunidade que Canta Junto

(Por Bambis e Arnon Oliveira)

Entre os coros do Núcleo de Música Coral, há um que se impõe naturalmente, não pela grandiosidade vazia, mas pela soma rara de organização, entrega e maturidade musical: o Coral da FALEÉ o maior grupo, tanto em número quanto em nível técnico, e assistir à sua apresentação é sempre perceber o quanto um coro amador pode ser, quando é guiado com cuidado, estrutura e visão artística.

Sob a regência de Phill Rezende, o grupo encontrou um horizonte firme. Phill sabe ler o potencial humano da FALE com lupa: identifica os talentos, respeita as limitações, cria espaço para que todos se reconheçam como parte de algo maior. Apesar de não ter um pianista oficial, o coro sustenta sua excelência por meio de um modelo interno que impressiona: há diretoria ativa, chefes de naipe atentos, assistentes formais e uma cultura de responsabilidade compartilhada.

Nada disso é burocracia, é método de cuidado. A seleção das músicas refletiu a inteligência artística do grupo: Jangadeiro; Ai, que saudade d’ocê; Locus Iste; Adeste FidelesHá aqui uma travessia entre o sacro e o popular, o erudito e o afetivo, e o coro percorre essa ponte com segurança e naturalidade.

O Coral da FALE tem técnica, sim, mas tem também algo mais raro: unidade de intenção. Canta com orgulho. Canta com propósito. É possível sentir que cada obra foi escolhida para revelar uma nuance do grupo: a precisão harmônica, o vigor rítmico, a ternura brasileira, a ressonância que se abre no corpo inteiro.

Enquanto alguns coros brilham pela espontaneidade e outros pela invenção, o Coral da FALE se destaca pela elegância, aquela elegância que não faz barulho, mas impõe respeito. O som é limpo, o fraseado é cuidado, as entradas são seguras. E, acima de tudo, há uma consciência estética que parece atravessar todos os cantores. É inspirador ver um grupo amador operar com esse nível de maturidade. E é gratificante saber que essa excelência vem de um espaço de afeto e pertencimento, não de pressão.

No encontro daquele domingo, 30/11, a presença do FALE serviu como testemunho vivo do propósito do Núcleo: formar comunidade, promover arte acessível, criar ambientes de transformação. 

O Coral da FALE é a prova de que, quando estrutura, afeto e música se alinham, um coro universitário deixa de ser um projeto e vira um organismo vivo, pulsante, inspirador. Eles cantam como quem sabe que está construindo um legado. E nós, do NMC, cantamos com eles, e aprendemos, a cada apresentação, que excelência e humanidade podem caminhar juntas.









quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Encontro de Corais do NMC (3): Coral da Engenharia - A Elegância do Essencial

(por Bambis e Arnon Oliveira)

Alguns coros encantam pela grandiosidade, pela quantidade de vozes, pela densidade sonora. O Coral da Engenharia encanta por outra via: pela elegância do essencial. 
É um grupo menor, amador, que enfrenta desafios muito concretos, especialmente a divisão em quatro vozes, mas que transforma esses limites em potência criativa. Sob a regência de Gustavo Paiva, o coro encontrou uma identidade que não tenta imitar nenhum modelo idealizado. Pelo contrário: o grupo floresce exatamente onde está, com os recursos que tem, e cria a partir disso uma expressão muito própria.

Trabalhar com poucos cantores exige precisão, escuta próxima e humildade artística. Cada entrada conta, cada respiração se torna estrutural. Cada voz individual precisa compreender o desenho do todo. E é justamente aí que o Coral da Engenharia se destaca: na capacidade de fazer muito com pouco, de oferecer um resultado musical que surpreende pela naturalidade. Nada soa forçado, nada soa maior do que pode ser. O coro faz sua música dentro da sua verdade, e isso chega ao público com nitidez. Canta um repertorio elegante, e consegue entregar com qualidade o que propõe, principalmente considerando todas as limitações.

A escolha do repertório para o encontro revelou o cuidado do Gustavo em dar ao grupo uma paleta musical variada e significativa:
• When Jesus Wept
• Sanctus
• Cantata Louvação para Irmãs Clarissas (Frei Joel – Louvores de São Francisco)
• Dois Rios
É um leque que atravessa o sacro e o popular, o introspectivo e o expansivo. E o coro respondeu a essa variedade com uma musicalidade tocante, encontrando caminhos para interpretar cada obra de modo coerente, simples e verdadeiro. Não se trata de exibir virtuosismo, mas de servir a música. E essa postura, no contexto de um coro amador universitário, é uma conquista rara.

O Coral da Engenharia é feito por estudantes de um curso intensamente técnico, pesado, exaustivo. E talvez por isso mesmo, cantar se torne ali um ritual de respiro, uma pausa que reorganiza o mundo. E esse ritual/canto é honesto, limpo e coerente. E essa honestidade musical, quando encontra um bom regente e um repertório escolhido com inteligência, produz algo que talvez seja a verdadeira essência do canto coral universitário: a arte feita de encontro, de tentativa, de alegria simples e de compromisso com o que é possível. E, como sabemos, o possível, quando iluminado, vira belo.









Tuks Camerata: um coro universitário que atravessa tempos

O Tuks Camerata é mais um dos coros que descobri nas minhas "andanças" virtuais em busca de novos conjuntos para admirar e aprende...