quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Meninos cantores: a voz que passa, a música que fica

Em 2010 escrevi um texto sobre os pueri cantores. Relendo hoje, ele pede menos explicação histórica e mais escuta do que está em jogo quando falamos de meninos cantores, ontem e agora. E que bom que os tempos mudam as tradições.

“Meninos cantores” são uma tradição antiga, ligada principalmente às igrejas cristãs, católicas e protestantes. Sempre tiveram um papel importante na história da música, já que, desde a Idade Média, os coros das igrejas eram formados por jovens ligados à vida religiosa. Vale lembrar, ou informar, que as mulheres só puderam cantar nos coros das igrejas, e ainda com muitas restrições, a partir do século XVIII.

A partir do século XII, a importância dos meninos cantores aumentou bastante, porque o desenvolvimento da música polifônica passou a exigir vozes agudas bem definidas, capazes de sustentar linhas independentes. O problema é que a “vida útil” de um menino cantor é curta: começa por volta dos sete anos e termina com a mudança vocal na puberdade, o que raramente passa dos dezesseis anos.

Foi tentando resolver essa limitação que a história dos cantores entrou num de seus capítulos mais duros. A Igreja Católica, por meio de padres que tiveram contato com o mundo islâmico no sul da Espanha, tomou conhecimento da prática da castração. Os eunucos, responsáveis pela vigilância dos haréns dos califas, tinham voz aguda justamente por terem sido castrados antes da puberdade. Essa prática acabou sendo incorporada à música europeia durante um longo período. Felizmente, foi proibida há muito tempo.

O que permanece hoje são os coros de meninos, muitos deles de altíssimo nível artístico. Esses jovens recebem formação musical consistente e executam repertórios complexos com naturalidade, fruto de estudo, disciplina e escuta coletiva.

No Brasil, há um número significativo de coros de meninos e, de algum tempo para cá, meninas também passaram a integrar esses grupos, rompendo uma exclusividade histórica que já não fazia sentido. Uma mudança necessária e muito bem-vinda.

Na região de Belo Horizonte, destaco alguns grupos que tiveram (e têm) papel importante nesse cenário: os Canarinhos de Itabirito, o Coral Mater Eclesiae, os Rouxinóis de Divinópolis e o Coral Dom Silvério.

A voz muda. O corpo cresce. Mas a experiência de cantar em coro, quando acontece cedo, costuma ficar para sempre.

 

Tölzer Knabenchor + Bach + Harnoncourt (2)

 

Foto em preto e branco de grupo de pessoas sentadas

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2 comentários:

  1. A voz muda dos meninos e das meninas. Quando menina sai do coro nesta fase. É saudável passar a transição dentro ou fora do coro?

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    1. Em outros tempos, se julgava melhor a saída durante algum tempo. Hoje, já se percebeu (e estudos mostram) que não há a necessidade do afastamento, mas é necessário que o regente ou preparador acompanhe o cantor durante o processo. O cantar não traz problemas. O que traz problemas são excessos durante um período em que processos físicos estão acontecendo.

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