sábado, 8 de agosto de 2026

Quando a juventude escolhe uma obra difícil (uma reflexão)

Existe uma ideia bastante difundida de que os jovens preferem sempre o caminho mais fácil. Que precisam de resultados rápidos, desafios pequenos e experiências imediatas para permanecerem motivados. Depois de mais de trinta anos trabalhando com coros formados majoritariamente por jovens, posso dizer que minha experiência aponta exatamente na direção oposta: nunca vi um cantor permanecer anos em um coro porque tudo era fácil. Vi muitos permanecerem justamente porque acreditavam que poderiam fazer algo que, à primeira vista, parecia maior do que eles.

Essa talvez seja uma das grandes virtudes da juventude: ela ainda não aprendeu a calcular demais os próprios limites. Quando encontra um projeto em que acredita, entrega tempo, estudo, energia e entusiasmo com uma generosidade que, muitas vezes, surpreende quem observa de fora. A dificuldade, por si só, raramente afasta um jovem. O que realmente o afasta é a sensação de estar fazendo algo que não faz sentido.

Ao longo da minha história como regente de coros, vi isso acontecer inúmeras vezes. Quando propunha aos cantores uma obra de grande dimensão, a reação quase nunca era de medo. Ao contrário, havia uma curiosidade genuína em descobrir até onde o grupo conseguiria chegar. Não significava ignorar a complexidade da tarefa, pois todos sabiam que seriam meses de estudo, ensaios, revisões e muito trabalho, mas havia também uma confiança silenciosa de que aquele esforço produziria uma transformação que ultrapassava o próprio concerto.

Com o tempo, percebi que grandes obras exercem um fascínio muito particular sobre grupos jovens. Não apenas porque são belas ou importantes na história da música, mas porque representam um convite ao crescimento. Elas colocam diante do coro um horizonte que ainda não foi alcançado e, justamente por isso, despertam o desejo de caminhar até ele. O desafio deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma promessa de descoberta. Sempre acreditei que o estímulo vem quando oferecemos condições para que enfrentem desafios verdadeiros. A dificuldade, quando vem acompanhada de propósito, costuma revelar capacidades que nem eles próprios imaginavam possuir.

Foi exatamente esse espírito que encontrei no Madrigale, em 2002, quando surgiu a ideia de montar O Messias, de Handel. Naquele momento, ninguém perguntou se a obra era grande demais para o coro, mas como poderíamos nos tornar um coro capaz de cantá-la?

A diferença entre essas duas perguntas parece pequena, mas, na verdade, ela muda completamente a história de um grupo.



Um comentário:

  1. Concordo plenamente. Quando falei de Carmina Burana ou da Nona Sinfonia, vi o coro se acender em curiosidade e desejo de superação.o resultado foi um coro com gana de fazer acontecer, motivado e empenhado. Até ensaios extras fui capaz de realizar para garantir o sucesso, e é motivo de orgulho até hoje. O crescimento é gigantesco.
    Manu

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