Voltei a este texto escrito há cerca de quinze anos. Na época, ele nasceu de uma conversa informal com um colega mais jovem, regente talentoso, dedicado, mas cansado, impaciente, à beira do desânimo. Hoje, relendo, percebo que ele continua dizendo coisas que ainda precisam ser ditas. Talvez porque a regência, apesar de tudo, continue sendo uma arte que se constrói devagar, num mundo que anda rápido demais.
Então, este texto vai para os muitos jovens regentes, repetindo sempre:
não desanimem, estudem e, acima de tudo, tenham paciência, paciência,
paciência...
Há exatos 25 anos (40, agora!!!) eu entrei à frente de um coro, para reger. Exatamente da mesma maneira que muitos outros o fazem aqui no Brasil, ou seja, sem conhecimento de técnicas de condução, incentivado por um regente mais velho que, romanticamente, acreditava que eu tinha talento e que, por isso, deveria começar desde cedo a dirigir, a conduzir. Ao longo destes vários anos, muitos cursos foram feitos, centenas de concertos foram realizados, milhares de ensaios aconteceram, construindo e desconstruindo a arte do gesto.
A técnica da regência é incerta: a regência orquestral pede uma coisa, a coral outra; tenta-se misturar as duas e nem sempre dá certo. Alguns maestros pregam a independência do gesto em função da circularidade das frases; outros acreditam que a prevalência da manutenção do pulso é mais importante. Magnani acreditava que a condução da frase era essencial; Carlos Alberto Pinto Fonseca afirmava o ritmo na virilidade da sua condução, e assim por diante. Há como misturar as lógicas? Sim. Vale a pena? Nem sempre.
Uma conclusão? É uma arte que demanda estudo e pesquisa do que se faz, tal qual o teatro de bonecos japonês (Bunraku), que exige quase uma vida inteira para permitir aos artistas movimentarem os bonecos integralmente. Outra conclusão? Não se rege coro como se rege orquestra. Ainda outra? Falta muito para eu aprender a reger como meus velhos mestres.
Relendo esse texto hoje, com mais tempo de estrada, percebo
que ele continua falando de mim porque continuo aprendendo. O gesto ainda se
transforma, a escuta ainda se refina, a insegurança ainda aparece e talvez
precise aparecer. O que mudou foi o entorno: hoje há mais informação, mais
cursos, mais modelos disponíveis, mas menos espaço para a espera. Sinto que
muitos jovens regentes são pressionados a mostrar resultados antes de
compreender processos. Por isso, sigo acreditando no que escrevi lá atrás. A paciência
não é um luxo, nem uma virtude romântica; é uma condição de sobrevivência
artística. A regência continua sendo uma arte longa eu sigo tentando
estar à altura dela.
Bravo!!
ResponderExcluirConcordo plenamente, comecei exatamente assim quando tinha apenas 17 anos.
ResponderExcluirHoje, aos 28 anos de idade, vejo a importância desse processo de construção não só da técnica gestual, mas, também da maturidade de estudo que requer longas horas de pesquisa e dedicação.