No meio do Concerto Internacional Pop Rock 2 aconteceu uma coisa que ninguém estava esperando. Nem o coro, nem a banda e, principalmente, nem a Lívia. Chamei-a ao palco para cantar Your Song conosco. A ideia tinha aparecido na minha cabeça apenas na véspera, durante o ensaio geral. Não falei nada com ninguém. Guardei e resolvi fazer na hora. Quando a chamei, houve alguns segundos daquele “o que está acontecendo?” geral. E era justamente isso que eu queria.
Havia uma razão muito particular para ser Your Song. Lívia e eu sempre tocamos essa música juntos. Ela pertence ao nosso repertório e acabou ficando ligada também a uma mudança importante que aconteceu na minha própria relação com a música. Com o passar dos anos, fui sendo levado pela vida a ocupar cada vez mais o lugar do maestro. O piano continuou presente, evidentemente, mas muito ligado ao trabalho de regência, ao estudo e ao repertório erudito. Sempre fiz arranjos de música popular, mas não havia uma dedicação maior minha a esse universo como intérprete.
Curiosamente, durante a pandemia alguma coisa começou a mudar. Voltei a me interessar por tocar MPB, experimentar músicas, procurar cifras, harmonias, outras maneiras de usar o piano. Hoje penso que aquilo foi quase uma preparação para o que viria depois.
Então conheci Lívia. Ela não fez nenhum discurso sobre a necessidade de eu reencontrar a música popular. Fez uma coisa muito mais eficiente: me convidou para tocar com ela. E eu fui.
Vieram os shows, os ensaios, repertórios que eu não conhecia tão bem, outras maneiras de acompanhar uma cantora, de escutar uma canção, de construir uma interpretação. Para quem passou tantos anos trabalhando prioritariamente com música coral e repertório erudito, havia ali muita coisa para aprender. E gostei muito desse aprendizado. Acho que o maestro também mudou nesse processo. Ficou mais leve.
Hoje não vejo mais muita utilidade em separar esses universos. O músico que rege um moteto é o mesmo que toca MPB, que acompanha Lívia, que trabalha Queen com o Madrigale ou volta no dia seguinte para Palestrina. Uma experiência vai entrando na outra, e essa integração se tornou preciosa para mim.
E Your Song ficou no meio dessa história. Além de tudo, é uma obra-prima. Daquelas canções que não precisam de nenhuma justificativa adicional para estar num programa. Por isso, naquele concerto, pareceu muito natural chamá-la.
Lívia entrou, o coro entendeu imediatamente o que estava acontecendo, a banda também, e cantamos. Todos ali conhecem nossa relação afetiva e profissional, então havia algo especial naquela cena que dispensava explicações.
O público via uma cantora convidada subir ao palco para cantar Your Song com o Madrigale. Para mim havia um pouco mais. Estava ali a pessoa que, alguns anos antes, tinha simplesmente me dito: venha tocar comigo. E eu voltei a tocar.
🎥 Your Song - Madrigale Internacional Pop Rock 2026
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