segunda-feira, 2 de março de 2026

O Retorno do Madrigale

Ontem, o Madrigale voltou a cantar em um concerto.

A palavra “retorno” parece simples, mas não é. Entre o último ensaio antes do recesso e este concerto na Igreja São Francisco de Assis, atravessamos mais do que semanas de pausa. Foi um tempo de silêncio, de distância, de perguntas não ditas e, no meu caso, de um refazimento de ideias, valores e importâncias. Para além disso, foi um tempo de respiro depois de tensões acumuladas, de conflitos silenciosos, de redefinições internas, não apenas em relação ao coro, mas à vida.

Pausas, quando honestas, não são abandono. São respiração. Confesso que houve momentos, sim, em que temi que o Madrigale não voltasse a ensaiar. Pensei em encerrar o ciclo, “fechar a fábrica” e seguir outros caminhos. Natural. Todo processo longo atravessa seus abalos... Mas, nesse mesmo silêncio, algo foi se reconstituindo dentro de mim: a compreensão de que o Madrigale não é apenas um grupo que eu conduzo. Eu sou o Madrigale, e assumir isso novamente foi parte essencial desse tempo.

Cantar depois de uma pausa é sempre um gesto de confiança: confiança de que o vínculo ainda sustenta o som. Voltar a cantar ontem, naquele espaço simbólico de uma Belo Horizonte que nos viu nascer e crescer, foi como recolocar o corpo em um espaço conhecido, mas não idêntico ao que deixamos. A Igrejinha tem a capacidade de ampliar o som e, ao mesmo tempo, revelar fragilidades, e a acústica expôs, sob certo aspecto, o que somos neste instante.

O primeiro acorde trouxe mais do que afinação. Trouxe memória... Memória dos que estiveram, dos que saíram, dos que ficaram. Memória das dúvidas que rondaram o grupo nos últimos meses. A primeira interação de fala com o público foi para, em um ato pensado, dizer ao público (e a todo o coro) que “nós somos o Coro Madrigale”, e isso não foi fácil. Essa pequena frase, tão intensa e sincera, quase me fez chorar (e essa não foi a primeira vez que tive de me segurar durante todo o concerto).

Percebi, enquanto regia, um lugar que estava meio esquecido havia algum tempo: o lugar da confiança e da alegria, tão próprios da existência do Madrigale. A sensação de sermos um corpo integrado. Eu e os cantores. Os cantores e eu. Nós. Sim, porque o Madrigale é um conjunto que se faz pela força do grupo e não pela soma de individualidades.

Não foi difícil reativar os processos. Bastou pouco tempo para que os naipes se reconhecessem, testassem novamente a própria segurança e a música se encontrasse dentro da nossa naturalidade. Não se trata de desligar e religar no mesmo ponto. Trata-se de retomar um fluxo que já tem história (33 anos de história) e que sabe, mesmo depois de abalos, onde está sua base. Isso porque um coro respira, sofre, amadurece.

E a igreja e o público estavam ali como testemunhas, ainda que não soubessem. As linhas de Niemeyer, a beleza da Lagoa ao redor, a imagem e proteção do meu tão amigo São Chiquinho. Ali, tudo convidava à interioridade, nada de afirmações. Ali, foi um gesto de continuidade.

Depois do último acorde, ainda na alegria plena de todos, troquei um olhar com o grupo e agradeci. Um agradecimento sincero, simples. Ali senti uma espécie de serenidade que não vinha de qualquer busca por perfeição técnica, mas da permanência. Sim, permanecemos, sorrimos, nos emocionamos.

O retorno não apaga o que passou, mas incorpora. E talvez seja essa a maturidade possível neste momento do Madrigale: seguir cantando sem ignorar as fissuras, sustentando o som com a consciência de que cada ciclo exige revisão, cuidado e escuta.

Ontem, na Pampulha, o Madrigale voltou. E, ao voltar, reafirmou o que é. Nessa reafirmação, dizemos com muita alegria: nós somos o Coro Madrigale!!!












domingo, 1 de março de 2026

O ensaio como espaço ético (uma reflexão)

O que penso de um ensaio?

O ensaio, para mim, não começa na partitura, começa na relação. E, ao longo dos anos, fui aprendendo que ensaio não é apenas espaço técnico, mas é, sobretudo, um espaço ético. 

Antes do primeiro acorde, há o café, esse pacto silencioso que diz: estamos aqui juntos. O ensaio começa ali, com alguns minutos compartilhados, conversa solta, uma preparação mais humana que vocal. Se esse pequeno rito falha, algo já se desloca. O trabalho pode até acontecer, mas falta o eixo.

Costumo iniciar com um vocalize que não tem a função principal de aquecer vozes, mas de harmonizar o ambiente, uma tentativa de alinhar respirações e intenções. E aí o ensaio acontece de maneira a preparar todo o grupo para uma apresentação qualquer tendo como um princípio muito meu de que o caminho de preparação sempre é muito mais importante e prazeroso do que o final, o concerto, em si. Ali se criam relações do coletivo e individuais que se refletirão na maneira como o conjunto se mostrará para a comunidade que o aguarda.  

Sobre relações individuais, é claro que já falhei nisso. A tentativa de harmonia nem sempre é possível e bem conduzida. Já expus cantores com palavras desnecessárias. Já confundi frustração musical com dureza de caráter. O tempo ensina, mas não apaga o que foi dito. Liderar um grupo é lidar com poder, e poder mal administrado deixa marcas. 

Costumo dizer que tento ser um “ditador benevolente”, porque há uma ordem a manter e um coro não se constrói na dispersão. Mas liderança não é imposição constante. Percebo que ultrapassei a medida quando o clima muda, quando a cobrança começa a retirar segurança de um naipe inteiro. A tensão é um termômetro e se ela paralisa, algo está errado.

Erro nunca me incomodou, negligência, sim. Quando instruções claras são ignoradas por distração ou desatenção, o problema deixa de ser técnico e se torna relacional. O tempo do ensaio pertence a todos e desperdiçá-lo é uma forma de desrespeito coletivo.

Há também os silêncios difíceis, o silêncio de quem não fala o que pensa e permite que outros assumam o confronto. Esse tipo de silêncio corrói o grupo, cria desconforto, afasta os novos cantores. Como líder, aprendi que sempre participo da desarmonia quando ela surge porque não há neutralidade possível.

Já vivi ensaios tecnicamente eficientes e humanamente pobres. E já vivi o contrário: encontros imperfeitos na execução, mas densos de presença e compromisso. O que permanece não é apenas o resultado musical, mas a qualidade do vínculo que sustenta o som.

Um ensaio eticamente saudável exige participação integral. Não apenas vozes afinadas, mas responsabilidade, escuta, preparo e respeito pelo trabalho comum. A boa qualidade musical não nasce isolada da convivência. Ela é consequência de um ambiente em que todos assumem sua parte.

Aprendi que o som revela o clima... Sempre revelou.





 


sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Madrigale em Poços de Caldas, 1995

Eu ainda me lembro da sensação de colocar as partituras na mochila com um frio no estômago desde Belo Horizonte. Era um verdadeiro teste. Participar daquele Festival significava nos expor num cenário onde outros coros já tinham história, tradição, nome consolidado. Nós éramos jovens. E queríamos ser levados a sério.

Chamávamo-nos Coral Madrigale Nansen. A Nansen Aparelhos de Precisão nos patrocinava, nos apoiava com generosidade e acreditava em nós. Carregávamos aquela marca com orgulho porque eram os nossos primeiros patrocinadores, um voto de confiança.

Eu tinha 28 anos e, hoje, penso naquele jovem maestro com certa ternura. Ele não fazia ideia do que aquele coro se tornaria. Só sabia que queria fazer música da melhor qualidade possível. 

O uniforme era outro tempo: suspensórios, cores claras, uma identidade visual quase ingênua. Não tínhamos sede fixa de ensaio, não tínhamos a estrutura confortável que temos hoje, mas tínhamos vontade, e isso, naquela fase, parecia suficiente.

Le Chant des Oyseaux era nossa joia. Cantávamos aquela peça com orgulho porque, para nós, conseguir executar Janequin com segurança era prova de maturidade coral.

Mas então veio o episódio que marcaria aquela viagem.

A organização do Festival informou que haveria alojamento para os grupos. Quando chegamos, encontramos um ginásio coberto, um salão frio, com cheiro de mofo, colchões espalhados pelo chão. Alguns cantores alérgicos já começaram a sentir os primeiros sinais de desconforto. A tensão cresceu rapidamente.

Foi então que Kátia Malloy, diretora do coro na época, assumiu o comando com a firmeza que lhe era própria. Saiu pela cidade e, em poucas horas, conseguiu um acordo improvável: um hotel no centro nos hospedaria por um valor reduzido, desde que fizéssemos uma apresentação privada para os hóspedes.

Problema resolvido para nós. Problema criado para o Festival. A decisão não foi bem recebida. Alguns entenderam como recusa, outros como capricho. Havia olhares atravessados. Comentários sussurrados. A palavra “arrogância” talvez tenha circulado ali, mesmo que não dita abertamente. Éramos os “moleques atrevidos” que não quiseram dormir no ginásio.

Então, subimos ao palco naquela noite carregando não apenas partituras, mas um clima. Havia expectativa, talvez até certo desejo de nos ver tropeçar. Atacamos Le Chant des Oyseaux. A tensão inicial se dissolveu nos primeiros compassos. A energia circulou. Quando terminamos, veio um aplauso caloroso, daqueles que atravessam o corpo e dizem: “os meninos são bons”.

As peças seguintes foram executadas num outro ambiente. O spiritual aproximou o público de uma escuta mais íntima. A peça brasileira, com seus assovios e sua vitalidade rítmica, abriu sorrisos. A música fez o que sempre faz quando é bem feita: reorganizou percepções. No fim da noite, o que parecia arrogância tornou-se compreensão. Não queríamos privilégios, queríamos preservar as vozes. Queríamos cantar bem. O que parecia capricho revelou-se cuidado e eles entenderam.

Hoje, percebo que aquele episódio dizia muito sobre o que o Madrigale sempre foi e quis ser. Um coro disposto a assumir riscos, a enfrentar olhares tortos, a sustentar decisões quando acreditava nelas. Jovem, ousado, às vezes mal interpretado, mas comprometido com a música.

O Festival de Poços de Caldas foi uma pequena prova de caráter coletivo e, sem que soubéssemos, foi também um dos primeiros momentos em que aprendemos que afirmar-se musicalmente exige coragem fora do palco tanto quanto dentro dele.

Eu tinha 28 anos... O coro ainda estava se descobrindo. Mas ali, naquele palco, algo ficou claro: éramos bons. E queríamos continuar sendo.


Salão com pessoas ao redor

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Foto em preto e branco de grupo de pessoas posando para foto

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 Da Esquerda para a Direita
Em Cima: Arnon, Marco Paulo, Joubert, Éder, Ricardo, Sérgio, Hauck, André, Gustavo
Em baixo: Juliana, Luciana, Letícia, Fernanda, Daniela, Kátia, Polliana, Sandra

Uma imagem contendo chão, no interior, mesa, quarto

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Desenho de animal

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Diagrama

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dancing Queen (Mad Internacional)

Concerto Internacional do Madrigale

13 de junho de 2025

Teatro Sesiminas — Belo Horizonte/MG

Regência: Arnon Oliveira

Banda:

Elias Santos (violão/guitarra)

Hugo Silva (baixo)

Júlio Bastos (piano)

Phil Rezende (teclados)

Encerramos aquele concerto e a sequência de posts que fiz dos concertos internacionais com Dancing Queen, essa canção do ABBA, lançada em 1976, que constituía-se numa alegria interna do coro, que gostava muito do arranjo. No palco do Teatro Sesiminas, a energia foi compartilhada. O coro manteve foco técnico, a banda sustentou o fluxo com precisão, e o público respondeu com envolvimento imediato. Um encerramento vibrante para uma travessia que uniu estilos, épocas e linguagens sob a mesma premissa: organização musical e entrega consciente.

Foi muito e, quem sabe, nesse ano tem mais?...

🎬 Madrigale Pop Internacional – 14. Dancing Queen

 

 

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Swingle Singers

Me permitam trazer mais um grupo vocal para o conhecimento de todos, o Swingle Singers. Este é um ícone que ocupa um lugar singular na história da música vocal do século XX. Criado em Paris, em 1962, por Ward Swingle, o grupo nasceu quase por acaso, como tantas boas ideias na música. Reunidos inicialmente para trabalhos de estúdio e como cantores de apoio de nomes centrais da canção francesa, como Charles Aznavour e Edith Piaf, os cantores da primeira formação usavam Bach como exercício diário de afinação, precisão e escuta coletiva.

O ponto de virada veio quando perceberam que aquelas linhas rigorosas do Cravo Bem Temperado continham um balanço interno surpreendente. O resultado foi o álbum Jazz Sebastian Bach, gravado inicialmente sem pretensões comerciais, quase como um presente privado. O sucesso espontâneo nas rádios transformou o experimento em fenômeno internacional. De repente, Bach "swingava", não por caricatura, mas por compreensão profunda de ritmo, articulação e contraponto. O grupo viria a conquistar cinco prêmios Grammy, algo raríssimo para um conjunto vocal a cappella.

Em 1973, a primeira formação se dissolveu. Ward Swingle mudou-se para Londres e refundou o grupo, que passou por diferentes nomes (Swingle II, The New Swingle Singers, The Swingles) até reassumir o nome original. Mais importante que a nomenclatura, porém, foi a continuidade do projeto: desde então, o grupo nunca deixou de existir. As vozes mudaram, as formações se renovaram, mas a ideia permaneceu.

Segundo informações da página oficial do conjunto, o Swingle Singers atua hoje como um coletivo internacional, reunindo cantores de diferentes nacionalidades, todos com sólida formação em leitura, estilo e técnica vocal. O repertório expandiu-se muito além de Bach: música contemporânea, arranjos de jazz, pop, trilhas de cinema e encomendas a compositores atuais convivem com o núcleo barroco que fundou sua identidade. O grupo mantém intensa atividade de concertos, gravações, colaborações com orquestras e projetos educacionais, sempre reafirmando o canto a cappella como linguagem viva e em permanente reinvenção.

Algo notável: apesar da virtuosidade extrema, o Swingle Singers nunca se construiu como vitrine de individualidades. O impacto vem do conjunto, da escuta mútua, da precisão coletiva levada ao limite. Cada voz sabe exatamente quando aparecer e, sobretudo, quando desaparecer. É por isso que, passadas tantas décadas, o grupo segue atual, não apenas como curiosidade histórica ou ícone do crossover, mas como exemplo de um princípio essencial da música coral: quando o coletivo funciona, a liberdade não diminui, ela se organiza.

 

Vejam o Swingle Swingers ao longo dos anos:

Les Swinger Singers J S Bach English Suite No2 Bourre 1969

Imagem em preto e branco de homens lado a lado

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 The Swingles Singers: Claro de luna

 Grupo de pessoas em pé

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THE SWINGLE SINGERS  -  Libertango

Pessoas no palco iluminado tocando instrumentos e cantando

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swingle singers-mission impossible

 

Grupo de pessoas posando para foto

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The Swingles - Blackbird/I Will (The Beatles A Cappella Cover)

 Mulher na frente de uma porta

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Ser Madrigale (uma reflexão no retorno)

Tem momentos em que a gente percebe que continuar no mesmo ritmo seria uma forma de deslealdade consigo mesmo. Eu senti isso. O Madrigale precisou parar, e essa decisão não foi simples, nem confortável. Houve dúvidas, houve peso, houve silêncio, mas havia também uma necessidade incontornável de me recolher...

Eu precisava me refazer. Precisava pesquisar, estudar, olhar de novo para as perguntas que me movem há tantos anos. E, no meio disso tudo, perceber que pesquisa e refazimento não são coisas separadas: quando eu mergulho no pensamento, reorganizo o maestro; quando reorganizo o maestro, reorganizo a mim mesmo; e quando isso acontece, eu reorganizo o coro.

Esse tempo foi um hiato humano. Foi um tempo de revisar convicções, de reavaliar prioridades, de admitir cansaços e redescobrir desejos. Foi um tempo de perguntar, com honestidade, o que ainda faz sentido. Retomar os ensaios, portanto, não é simplesmente voltar a cantar. É voltar depois de ter atravessado algo. É erguer o braço sabendo que ele carrega mais consciência do que antes. É reencontrar o coro não como quem retoma um projeto, mas como quem reencontra uma parte essencial de si (transformada).

Ao longo de 33 anos de existência, o Madrigale atravessou repertórios, formações, fases estéticas, crises e conquistas. O que permanece não é um estilo fixo, nem uma sonoridade cristalizada. O que permanece é uma ética.

Ser Madrigale nunca foi apenas cantar bem. Isso é pressuposto. Ser Madrigale é aceitar que o palco não é lugar de exibição, mas de exposição. Exposição de fragilidades, de tensões internas, de respirações que precisam coincidir. Uma hora de concerto é apenas a superfície visível de um trabalho invisível: horas de ajuste fino, de escuta mútua, de negociação silenciosa entre naipes.

Ser Madrigale é compreender que o som não nasce do indivíduo, mas do acordo. Que um solo só floresce porque há um corpo coletivo que o sustenta. Que afinação não é apenas frequência correta, mas atenção radical ao outro. Que o ritmo não é somente pulso métrico, mas respiração compartilhada. Aprendi que emoção não se impõe. Ela emerge quando a técnica está suficientemente consolidada para deixar de ser protagonista. Quando o cantor já não está preocupado em “acertar”, mas em sustentar a intenção. Quando o coro deixa de ser um conjunto de vozes e passa a agir como organismo.

Ser Madrigale é aceitar o rigor sem perder a leveza. É saber que disciplina não é dureza. Que intensidade não é volume. Que alegria não é desordem. Que espiritualidade não é lentidão. É compreender que a música é maior do que nós, mas que só acontece através de nós.

Hoje entendo, com mais nitidez, que o Madrigale nunca foi apenas um grupo que eu conduzo. Ele é também um lugar onde eu próprio me faço ao longo da vida. O coro amadurece e, com ele, amadurece o maestro. O grupo se reorganiza, e, com ele, reorganizo minhas escutas, minhas exigências, minhas escolhas. O Madrigale me forma tanto quanto eu o formo.

Ser Madrigale é um exercício permanente de construção coletiva. Não é identidade pronta; é identidade em processo. Não é resultado; é travessia. E quando essa travessia encontra coerência entre consciência e emoção, entre técnica e presença, a música deixa de ser execução. Torna-se verdade compartilhada.

Sendo assim, eu sou Madrigale... e o Madrigale sou eu.



No nosso ensaio de retorno em 24/02/2026

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Canção do Amanhecer (HelyElas)

Compartilho hoje, mais um momento do espetáculo HelyElas: as meninas do Madrigale interpretando Canção do Amanhecer, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo. Isso foi lá pelos idos de 2010, no auditório da Fundação de Educação Artística. 

É um dos arranjos do "Seu" Hely que eu mais gosto. O texto de Vinicius traz delicadeza e interioridade e a música de Edu Lobo organiza essa atmosfera com clareza estrutural. No contexto do arranjo, Hely celebra as vozes femininas e as escutas sensíveis, e essa canção sintetiza esse espírito em forma musical.

Cantar Canção do Amanhecer exige maturidade sonora. Exige escuta atenta entre os cantores. Exige confiança na construção coletiva do som. É um desses trabalhos de precisão, sutileza e unidade.

Compartilho com vocês uma interpretação que vale ouvir várias vezes.

🎬 Canção do amanhecer (2) - Coro Madrigale (2010)

 

Uma imagem contendo no interior, escuro, televisão, monitor

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma Chula em tempo suspenso (Madrigale Virtual)

Chula no Terreiro, de Frederico Dantas, foi gravada pelo Madrigale em abril de 2021, no auge de um tempo em que o encontro presencial ainda não era possível. O coro, que vive da presença, da respiração compartilhada e do corpo em relação, precisava encontrar outras formas de existir sem trair sua própria natureza.

A escolha da Chula, nesse contexto, não foi casual. Trata-se de uma música que nasce do chão, do gesto coletivo, da roda, do corpo que canta e dança junto. Levar essa música para o ambiente virtual não significou esvaziá-la, mas reafirmar seu sentido: ninguém canta chula sozinho.

Cada cantor estava em sua casa, cada voz gravada separadamente. Ainda assim, a peça se construiu a partir de uma pulsação comum, de uma intenção partilhada, de um acordo silencioso que vinha de antes, do trabalho acumulado, da escuta construída ao longo do tempo. A Chula funcionou como lembrança ativa de um terreiro que, naquele momento, só podia existir simbolicamente.

Era ali um gesto de afirmação do coletivo, não como celebração ruidosa, mas como cantoria simples, quase doméstica, sustentada pela ideia de que o coro continua sendo coro mesmo quando desmontado fisicamente.

Situada naquele abril de 2021, a peça guarda esse duplo sentido: memória de um corpo coletivo impossibilitado de se reunir e, ao mesmo tempo, insistência em manter vivo o movimento, o ritmo e o estar junto que definem o canto coral.

🎬 Coro Madrigale - Chula no Terreiro

 

Foto em preto e branco de homens

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domingo, 22 de fevereiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (6) ou o que volta com o coro

(Esse post é sequência da publicação do dia 13/02/26)  

Toda excursão termina no retorno, mas nem tudo volta no mesmo estado. Quando o Madrigal Renascentista regressou ao Brasil, depois de semanas intensas entre São Paulo, Sul do país, Argentina e Chile, algo já não era exatamente igual ao que havia antes da partida. O coro retornava com concertos feitos, compromissos cumpridos, aplausos acumulados, mas, sobretudo, com consciência de lugar.

A viagem de 1959 não foi apenas uma sequência de apresentações bem-sucedidas. Ela consolidou um modo de existir. O Madrigal passou a saber, na prática, que seu trabalho era compreendido, desejado e valorizado para além do território de origem, e isso altera a relação de um grupo consigo mesmo.

Primeiro, aconteceu um efeito interno. Uma excursão longa testa tudo: resistência física, convivência, pactos, disciplina, escuta. Não se sustenta um percurso desses apenas com entusiasmo. O que se observa é um grupo que aprende a funcionar sob pressão, a representar algo maior do que seus indivíduos, a manter qualidade mesmo quando o cansaço chega. Isso não se perde ao voltar para casa.

Outro aspecto fundamental é o repertório. As escolhas feitas, inclusive as mais arriscadas, como a apresentação de música contemporânea fora do Brasil, mostram um coro que não se contentava em agradar. Havia ali uma clara intenção de afirmar um projeto artístico, mesmo quando isso significava correr riscos de recepção. Isso marca profundamente a identidade de um grupo.

E há, ainda, o campo ampliado. Os encontros com outros maestros, outros coros, outras tradições deixaram sementes. O contato com o Chile, em especial, abriu um diálogo que se estenderia nos anos seguintes, com intercâmbios e retornos. O Madrigal deixou de ser apenas um coro brasileiro em viagem e passou a integrar uma rede latino-americana de canto coral.

E, talvez, seja esse o legado mais duradouro da excursão de 1959: ela ensinou ao coro que ele podia ser, ao mesmo tempo, instrumento artístico, agente cultural e espaço de formação humana, que cantar é mais do que apenas produzir som, mas é também ocupar um lugar no mundo.

Para mim, revisitar esses documentos a cada ano ou mês nunca é somente um exercício de nostalgia, mas é lembrar que já houve um tempo em que a música coral era tratada como assunto de interesse público, acompanhada pela imprensa, apoiada por instituições e entendida como parte de um projeto cultural maior. A pergunta que fica não é apenas histórica, ela é contemporânea: que lugar estamos dispostos a ocupar hoje com nossos coros?

E aqui encerro essa série de posts sobre a excursão de 1959 do Madrigal Renascentista. Outras histórias virão, pois o movimento coral de Belo Horizonte, e as viagens do Madrigal, não pararam por aí. Outras viagens aconteceram e outros documentos esperam ser lidos e compartilhados.


O Madrigal Renascentista (Foto do Acervo do Coro)


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Blog do Maestro Arnon: 1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (2)

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Blog do Maestro Arnon: 1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (5)

 


sábado, 21 de fevereiro de 2026

O coro antes da voz (uma reflexão)

(Ainda pensando nos meninos do post de 12/02/26)

Ao ouvir Henrik Brandstetter e Iker Jahn Valenzuela naquele dueto de Bach, é tentador concentrar tudo nas vozes: a pureza do timbre, a segurança técnica, a maturidade interpretativa. Mas isso seria olhar apenas para a superfície. Por trás dessa performance há algo mais decisivo: um coro que forma antes de exibir.

Meninos cantores não surgem prontos. Eles são construídos lentamente, em um ambiente onde a voz individual importa, mas nunca se separa do coletivo. A tradição coral à qual pertencem (e aqui o nome do coro é menos importante do que o método) entende que cantar bem não é apenas emitir som com beleza, mas saber escutar, esperar, ajustar-se.

O que se ouve nesse dueto é resultado direto disso. A afinação precisa, o equilíbrio entre as duas vozes, a clareza de articulação do texto e, sobretudo, a atenção ao sentido teológico da palavra não nascem de decisões isoladas. São fruto de uma cultura coral que valoriza o estudo, a disciplina e a responsabilidade com a música.

Há também algo fundamental: esses cantores aprenderam desde cedo que a voz não é propriedade privada. Ela pertence a um projeto maior. Mesmo quando estão em destaque, carregam consigo a escuta do conjunto, o respeito à linha do outro, a consciência do todo. Isso é aprendizado coral em seu estado mais profundo.

Em tempos em que a formação musical frequentemente se orienta para a exposição rápida e para o brilho individual, esse tipo de trabalho chama atenção justamente por seguir outro caminho. Um caminho mais lento, mais exigente, menos espetacular e, por isso mesmo, mais sólido. A técnica é construída junto com a compreensão histórica, linguística e simbólica da música que se canta.

É impossível separar essa performance da atuação pedagógica e artística de quem sustenta o coro no dia a dia. A figura do regente, do preparador vocal, do educador musical aparece ali não como protagonista, mas como estrutura invisível. O resultado é um canto que não força, não exagera, não teatraliza em excesso. Um canto que confia na música.

O que mais me impressiona é a naturalidade com que algo tão complexo se apresenta. Quando o coro funciona de verdade, ele produz esse efeito, faz parecer simples aquilo que é profundamente elaborado.

Esse dueto de Bach não é apenas um belo momento musical. É também um lembrete silencioso do que o trabalho coral pode ser quando é pensado como formação humana, musical e coletiva. Antes da voz, vem o coro. Antes do solista, vem a escuta. E quando isso está bem assentado, a música acontece.



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Quando não entendemos as palavras que cantamos (uma reflexão)

Quem participa de um coro certamente já passou por esta experiência: cantar uma obra em latim, alemão, francês ou qualquer outro idioma sem ...