No concerto de músicas internacionais que o Madrigale apresentou em junho de 2025, uma das peças de que mais gostei de trabalhar foi California Dreamin’, de John Phillips e Michelle Phillips, imortalizada pelo grupo The Mamas and the Papas.
Diferente das versões rápidas, solares e cheias daquela
pulsação folk tão característica dos anos 60, o arranjo escolhido, de Mac Huff,
seguia outro caminho. Era mais lento, mais contemplativo, quase
cinematográfico. Um pôr do sol em acordes.
O piano, contínuo e presente o tempo todo e tão bem tocado pelo Júlio Bastos, funcionava quase como uma segunda voz. Ele criava o solo onde o coro pisava: a estrada, o vento, o clima da costa oeste que ninguém ali tinha visto, mas que todos conseguimos imaginar imediatamente. Sobre essa base, as vozes entravam com calma, como quem abre uma carta antiga.
O que mais me chama a atenção nesse arranjo é a maneira como Huff transforma a nostalgia em ambiente. A música deixa de ser apenas um sonho de viagem para se tornar uma espécie de estado interno. É, de certa forma, um convite para diminuir o passo.
Quando o último acorde se apagou no palco, tive a sensação clara de que a Califórnia mencionada no título não era mais um lugar no mapa. Era um ponto de partida simbólico, uma memória possível, um lugar de pertencimento que cada um de nós encontrou à sua maneira. E foi nesse momento que percebi que, às vezes, uma canção americana dos anos 60 ganha nova vida na boca de um coro e passa a falar sobre outra coisa. Sobre nós. Sobre nossas saudades e afetos. Sobre os invernos que atravessamos e as pequenas primaveras que insistem em nascer.
🎧 (47)
Madrigale Pop Internacional – 05. California Dreamin - YouTube
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu nome e e-mail para que eu responda. Obrigado.