É curioso como a história da música coral brasileira tem lacunas, e como algumas delas dizem mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.
Entre tantos episódios que resgatei ao escrever sobre
Lumumba, no post de ontem, uma imagem insistiu em voltar: a de Nilo Amaro e
Seus Cantores de Ébano, grupo musical dos anos 1960 e que, de alguma forma,
representa um Brasil que poucas vezes foi plenamente reconhecido.
A presença desse grupo, formado por vozes negras femininas e
masculinas, é uma dessas lacunas que merecem ser revisitadas com carinho e
atenção.
Fundado no início dos anos 60, Nilo Amaro e Seus Cantores de
Ébano trazia uma formação vocal sofisticada: soprano, mezzo, contralto, dois
baixos, um tenor e três barítonos. A combinação, por si só, já mostrava ambição
estética, mas o que realmente impressionava era o modo como essas vozes se
articulavam:
harmonias densas, fraseados cuidadosos, uma musicalidade que
dialogava com os corais de igrejas afro-americanas, com a MPB nascente e com
uma brasilidade que ainda estava se entendendo.
Ouvir aquele conjunto era como reconhecer espiritualidade,
ritmo, melancolia, densidade harmônica, teatralidade, tudo caminhando junto, de
forma orgânica, elegante, profundamente humana.
Mas a importância desse grupo vai além da música. Há um aspecto simbólico profundo: vozes negras ocupando um espaço coral, num país que raramente ofereceu a essas vozes um lugar de destaque.
Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano não eram apenas intérpretes; eram um acontecimento cultural. Cantavam como quem afirma uma identidade. E mostravam, para quem quisesse ver, e ouvir, que a mistura entre técnica refinada, arranjo vocal e tradição popular podia ser um caminho legítimo e poderoso.
É impossível não pensar, aqui, na memória de Lumumba: no
orgulho de suas referências, na força política que atravessava seus gestos, na
consciência racial que moldava sua forma de estar no mundo. E é belo perceber
como essas histórias se encontram, mesmo que silenciosamente.
Falar desses Cantores de Ébano é, de algum modo, falar de
todas as vozes que abriram caminhos para a música coral brasileira. Daqueles
que cantaram à margem, daqueles que não couberam no repertório oficial,
daqueles que enfrentaram a invisibilidade com beleza, afeto e excelência
artística.
O grupo não durou muito tempo, mas deixou um rastro
luminoso: um jeito de cantar que unia disciplina coral, ancestralidade,
vocalidade popular e uma compreensão muito particular da harmonia. É um legado
que, infelizmente, ainda é pouco lembrado, e por isso mesmo merece ser
recuperado.
Por que revisitá-los agora? Porque a história coral não se constrói apenas com grandes obras europeias ou com instituições "de excelência". Ela se faz também desses grupos que cantaram com alma, que desafiaram padrões, que reinventaram o lugar da voz negra no Brasil.
E talvez a lição mais bonita que Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano nos deixam seja esta: que o canto em conjunto, quando nasce do coração de um povo, não precisa pedir licença para existir. Ele simplesmente se ergue, forte, vibrante, verdadeiro e deixa sua marca. Talvez seja hora de ouvirmos novamente essas vozes. Não para celebrá-las apenas como memória, mas para reconhecê-las como parte essencial de quem somos.
Nilo
Amaro e Seus Cantores de Ébano - Felicidades - Luar do Sertão - Gravação
Original.
Urutau
- Nilo Amaro e os Cantores de Ébano.
Nilo
Amaro e Seus Cantores de Ébano - GRALHA AZUL
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