terça-feira, 18 de novembro de 2025

Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano – um Brasil que canta e que esquecemos de ouvir

É curioso como a história da música coral brasileira tem lacunas, e como algumas delas dizem mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.

Entre tantos episódios que resgatei ao escrever sobre Lumumba, no post de ontem, uma imagem insistiu em voltar: a de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, grupo musical dos anos 1960 e que, de alguma forma, representa um Brasil que poucas vezes foi plenamente reconhecido.

A presença desse grupo, formado por vozes negras femininas e masculinas, é uma dessas lacunas que merecem ser revisitadas com carinho e atenção.

Fundado no início dos anos 60, Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano trazia uma formação vocal sofisticada: soprano, mezzo, contralto, dois baixos, um tenor e três barítonos. A combinação, por si só, já mostrava ambição estética, mas o que realmente impressionava era o modo como essas vozes se articulavam:

harmonias densas, fraseados cuidadosos, uma musicalidade que dialogava com os corais de igrejas afro-americanas, com a MPB nascente e com uma brasilidade que ainda estava se entendendo.

Ouvir aquele conjunto era como reconhecer espiritualidade, ritmo, melancolia, densidade harmônica, teatralidade, tudo caminhando junto, de forma orgânica, elegante, profundamente humana.

Mas a importância desse grupo vai além da música. Há um aspecto simbólico profundo: vozes negras ocupando um espaço coral, num país que raramente ofereceu a essas vozes um lugar de destaque.

Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano não eram apenas intérpretes; eram um acontecimento cultural. Cantavam como quem afirma uma identidade. E mostravam, para quem quisesse ver, e ouvir, que a mistura entre técnica refinada, arranjo vocal e tradição popular podia ser um caminho legítimo e poderoso.

É impossível não pensar, aqui, na memória de Lumumba: no orgulho de suas referências, na força política que atravessava seus gestos, na consciência racial que moldava sua forma de estar no mundo. E é belo perceber como essas histórias se encontram, mesmo que silenciosamente.

Falar desses Cantores de Ébano é, de algum modo, falar de todas as vozes que abriram caminhos para a música coral brasileira. Daqueles que cantaram à margem, daqueles que não couberam no repertório oficial, daqueles que enfrentaram a invisibilidade com beleza, afeto e excelência artística.

O grupo não durou muito tempo, mas deixou um rastro luminoso: um jeito de cantar que unia disciplina coral, ancestralidade, vocalidade popular e uma compreensão muito particular da harmonia. É um legado que, infelizmente, ainda é pouco lembrado, e por isso mesmo merece ser recuperado.

Por que revisitá-los agora? Porque a história coral não se constrói apenas com grandes obras europeias ou com instituições "de excelência". Ela se faz também desses grupos que cantaram com alma, que desafiaram padrões, que reinventaram o lugar da voz negra no Brasil.

E talvez a lição mais bonita que Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano nos deixam seja esta: que o canto em conjunto, quando nasce do coração de um povo, não precisa pedir licença para existir. Ele simplesmente se ergue, forte, vibrante, verdadeiro e deixa sua marca. Talvez seja hora de ouvirmos novamente essas vozes. Não para celebrá-las apenas como memória, mas para reconhecê-las como parte essencial de quem somos.

 

Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano - Felicidades - Luar do Sertão - Gravação Original.

 

Foto em preto e branco de homem pousando para foto

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Urutau - Nilo Amaro e os Cantores de Ébano.

 

Água do mar

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Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano - GRALHA AZUL

 

Pássaro em galho de árvore

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