Puñal
Em Puñal, a dor se concentra. Lorca aqui escreve como quem canta um cante jondo: poucas palavras, mas nenhuma sobra. O poema gira em torno de duas forças: a imagem do punhal atravessando o coração, e o grito repetido: “Não o craves em mim.” Só que há um detalhe importante, o punhal já entrou. Então esse “não” não é prevenção. É desespero tardio. É a consciência da ferida no exato momento em que ela acontece.
E a maneira como Lorca constrói essa imagem é desconcertante. O punhal entra “como a relha do arado na gleba”. É um gesto quase natural, como se a terra precisasse ser aberta, como se a dor fosse um tipo de cultivo.
E, em seguida, outra imagem: “como um raio de sol incendeia as terríveis baixadas”. Aqui, o punhal vira luz. Uma luz que não consola, que revela queimando. Dor que ilumina. Dor que expõe. A repetição do verso “Não o craves em mim” funciona como um refrão quebrado. Insistência que não resolve nada, porque no fundo não há escolha.
O poema não fala da possibilidade da dor. Fala do instante em que ela já se instalou. E isso é muito Lorca. Nada é explicado. Tudo é lançado.
Quando Castelnuovo-Tedesco leva esse texto para a música, ele entende esse mecanismo. Não há desenvolvimento longo. Não há construção progressiva. Há choque. A música trabalha com contrastes bruscos, tensão que aparece e se retira, como um gesto rápido demais para ser compreendido racionalmente.
🎬 Romancero Gitano, Op. 152: III. Puñal
III – Punhal (Tradução livre)
O punhal
entra no coração,
como a relha do arado
na gleba.
Não.
Não o craves em mim.
Não.
O punhal,
como um raio de sol,
incendeia as terríveis baixadas.
Não.
Não o craves em mim.
Não.
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