quinta-feira, 26 de março de 2026

O Gloria de 1996: um concerto de afirmação do Madrigale

Em 1996, o Madrigale vivia um ponto de inflexão, quando deixava de ser apenas uma promessa e começava, de fato, a ocupar um lugar de destaque no cenário musical de Belo Horizonte.

Ainda um grupo jovem, o coro encontrava naquele período condições importantes para se desenvolver. Contávamos com o patrocínio da Nansen Aparelhos de Precisão, o que nos levou, naquele momento, a adotar o nome Madrigale Nansen, e seguíamos explorando repertórios, ampliando nossas possibilidades musicais.

O convite para realizar o Gloria, de Vivaldi, com a Orquestra de Câmara do Sesiminas representou um passo importante. Já havíamos cantado essa obra em 1994, com o Coral Acesita, mas agora surgia a oportunidade de retomá-la em outro contexto, ao lado de um dos grupos orquestrais mais importantes da cidade. Era, claramente, um novo patamar.

O concerto, realizado na Basílica de Lourdes, em dezembro daquele ano, tinha também um sentido de homenagem. Era dedicado ao Dr. Nansen Araújo, figura fundamental na história cultural de Minas Gerais, um verdadeiro mecenas das artes, falecido naquele mesmo ano. Havia, portanto, algo que ultrapassava o próprio fazer musical.

O programa foi construído com uma intenção muito clara: afirmar o Madrigale no repertório sinfônico-coral. Ao lado do Gloria, que ocupava o centro do concerto, estavam obras de Monteverdi, Mozart, Bach e Händel, um percurso que colocava o coro diante de diferentes estilos, exigências técnicas e linguagens.

Os solistas eram todos cantores do próprio coro, uma prática que adotamos ao longo de toda a nossa trajetória.

O concerto aconteceu como esperado e talvez um pouco além. Foi uma apresentação muito bem-sucedida, daquelas que marcam não apenas pelo resultado, mas pelo que representam dentro de um processo. Um degrau a mais na construção do Madrigale.

Há, no entanto, um aspecto de contexto que hoje vale ser lembrado. Naquele período, não era raro encontrar uma certa resistência por parte de músicos de orquestra ao trabalho com coros. Havia uma percepção, muitas vezes pouco refletida, de que esse repertório era menor, menos desafiador, quase um desvio em relação ao “grande” repertório sinfônico.

No fundo, tratava-se de uma visão limitada do próprio fazer musical, porque o repertório sinfônico-coral exige algo que a música puramente instrumental nem sempre coloca no mesmo grau: a construção de sentido a partir da palavra, o equilíbrio entre massa sonora e clareza textual, a escuta coletiva em múltiplas camadas.

A convivência, por isso, nem sempre era simples. Mas foi justamente nesse atrito que algo começou a mudar. Aos poucos, em diferentes experiências, tornou-se evidente que o coro não era um elemento acessório, mas parte estruturante da música. E, nesse processo, o Madrigale teve sua pequena contribuição: ajudou a deslocar essa percepção, não pelo discurso, mas pela prática.









 

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