Depois da abertura com a Baladilla de los tres ríos, o ciclo nos conduz a um lugar ainda mais íntimo, mas com uma voz que fala do espaço anterior. E essa voz vem de um instrumento:
La guitarra
O poema pertence ao livro Poema del cante jondo, escrito por Lorca em 1921. É anterior ao Romancero Gitano, mas nasce do mesmo solo, a Andaluzia profunda, onde música e poesia não se separam.
Naquele início de século, Lorca, além de escrever muito, tentava salvar algo. Em 1922, junto com Manuel de Falla, organizou em Granada o Concurso de Cante Jondo, uma tentativa de preservar uma tradição que já corria risco de desaparecer.
E o que há nesse canto? O Cante Jondo (“canto profundo”) é um estilo tradicional do flamenco andaluz caracterizado por grande intensidade expressiva e temática grave. Suas letras costumam abordar sofrimento, morte, amor trágico e destino. Musicalmente, utiliza melodias modais, ornamentação vocal intensa, microvariações de afinação e ritmo flexível. É considerado uma das formas mais antigas e autênticas do flamenco, com influências ciganas, árabes e do folclore do sul da Espanha.
Na descrição poética, a guitarra não é o instrumento tão somente. É voz. E logo no início, ela chora, e esse choro não pode ser interrompido.
Lorca constrói esse som com imagens simples e inevitáveis: como a água que corre, como o vento sobre a neve, como algo que não se decide, simplesmente acontece. E para descrever musicalmente isso, a repetição é essencial: frases curtas, insistentes, quase obsessivas, como se o poema estivesse tentando imitar o próprio gesto musical da guitarra. Ou talvez o contrário: como se a guitarra já estivesse dentro da palavra.
Aos poucos, o espaço se amplia. Aparecem imagens típicas de Lorca: distância, calor, tempo suspenso, morte. Mas nada é narrado diretamente. Tudo é sugerido, como se o mundo estivesse sendo filtrado por esse som contínuo.
E então vem o verso final: “Coração malferido por cinco espadas.” Sem metáforas. A guitarra é o coração. As cordas (cinco na guitarra antiga) são lâminas. O som é a ferida dolorosa. Simples assim.
Quando Castelnuovo-Tedesco transforma esse poema em música, ele entende o essencial: o violão não pode ficar ao lado. Ele precisa estar no centro. Não como acompanhamento, mas como personagem. O que se ouve, então, não é apenas um coro cantando sobre uma guitarra. É um coro atravessado por ela.
🎬 Romancero Gitano Op.152 - "La guitarra" (Mario Castelnuovo-Tedesco)
II – A Guitarra (Tradução livre)
Começa o pranto
da guitarra.
Quebram-se as taças
da madrugada.
Começa o pranto
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora monótona
como chora a água,
como chora o vento
por sobre a nevada.
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
distantes.
Areia do Sul ardente
que pede camélias brancas.
Chora flecha sem alvo,
e tarde sem manhã,
e a primeira ave morta
sobre a rama.
Oh! Guitarra!
Coração malferido
Por cinco espadas.
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