sexta-feira, 27 de março de 2026

O Romancero Gitano I. Baladilha de los tres rios

Regi um concerto do Madrigale na última terça-feira, dia 24/03, e, dentre várias peças, uma delas era o Romancero Gitano, de Mario Castelnuovo-Tedesco. Ali mesmo, no palco, falando sobre a obra e suas partes, pura e bela poesia espanhola, me veio a ideia de trazer para este espaço uma explicação mais detalhada do que é essa obra e, quem sabe, convidar vocês a escutá-la aos poucos, como quem entra num território novo. Um concerto comentado. Vamos lá?

Antes de entrar em cada uma das peças, vale dar um passo atrás.

O Romancero Gitano é um ciclo composto em 1951, já na fase final de produção de Castelnuovo-Tedesco, um compositor italiano que, depois de emigrar para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra, transitou entre a música de concerto e o cinema, mas manteve um vínculo muito claro com a tradição europeia.

Há um dado importante: sua relação com o violão, muito marcada pela amizade com Andrés Segovia. Isso não é detalhe, pois ele escreveu várias peças para violão solo. O ciclo Romancero é escrito para coro e violão, uma escolha que já define o tipo de escuta que a obra pede.

Os textos vêm do Romancero Gitano (1928) e do Poema del cante jondo (1921), de Federico García Lorca. Neles, Lorca não descreve o universo cigano, mas o reinventa. Cria uma Andaluzia simbólica, onde tudo carrega sentido: o destino trágico, a liberdade, a marginalidade, o erotismo, a morte e uma natureza que não é paisagem, mas linguagem (a lua, a noite, os rios, os cavalos).

O que Castelnuovo-Tedesco faz é transformar isso em som. E, para ouvir melhor, três chaves ajudam:

  • o ritmo da língua espanhola, com seus versos octossilábicos organizando a pulsação;
  • a atmosfera, que não ilustra, mas cria um espaço onde as imagens possam existir;
  • e a relação entre coro e violão: o coro narra e o violão comenta, sustenta, tensiona, cria o chão.

O resultado é uma escrita clara, quase camerística, com uma beleza lírica evidente, quase sedutora, atravessada por uma tensão que nunca se resolve completamente. E, no fundo e resumindo, o Romancero Gitano é o encontro de três mundos: a poesia de Lorca, a tradição espanhola do violão, e a escrita refinada de um compositor europeu. E desse encontro nasce uma música que não descreve a Andaluzia, mas a recria. 

E logo na primeira peça, já se abre esse universo:

1. Baladilla de los tres ríos

O poema constrói um contraste entre Granada e Sevilha através de seus rios: o Darro e o Genil, em Granada, e o Guadalquivir, em Sevilha. Mas não se trata de geografia. Trata-se de estado de espírito. Granada aparece fechada, introspectiva, quase silenciosa. Sevilha, aberta, luminosa, expansiva.

Castelnuovo-Tedesco traduz isso com uma escrita que alterna contemplação e movimento. O coro declama, respeitando o ritmo da língua, enquanto o violão cria uma paisagem sonora que não está atrás , está dentro da narrativa. A textura é transparente. 

Como abertura, a peça cumpre um papel preciso: ela não explica o ciclo, mas, simplesmente, o anuncia. E anuncia bem porque, em poucas páginas, já está tudo ali: natureza, memória, identidade e uma tensão discreta que Lorca nunca abandona.

O resto da obra é, de certo modo, o aprofundamento dessa primeira imagem. (Amanhã, falo sobre a segunda peça: La Guitarra)



🎬Romancero Gitano Op.152 - "Baladilla de los tres rios" (Mario Castelnuovo-Tedesco)


I – Baladinha de Três Rios (tradução livre)

O rio Guadalquivir

entre laranjas e olivas.

Os dois rios de Granada

baixam da neve ao trigal.

        Ai, amor

        que se foi e não voltou!


O rio Guadalquivir

tem  as barbas avermelhadas.

Os dois rios de Granada

um é pranto e outro sangue.

        Ai,amor

        que se foi pelos ares!


Para os barcos de vela,

Sevilha tem um caminho,

pelas águas de Granada

somente remam suspiros.

        Ai, amor

       que se foi e não voltou! 


Guadalquivir, alta torre

e vento nos laranjais

Dauro e Genil, torrezinhas

mortas  por sobre as lagoas.

      Ai, amor

      que se foi pelos ares!


Quem dirá que a água leva

um fogo fátuo de gritos!

       Ai, amor

que se foi e não voltou!

Leva jasmim, leva olivas,

Andaluzia, a teus mares.

       Ai, amor

     que se foi pelos ares!

 



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O Romancero Gitano I. Baladilha de los tres rios

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