Regi um concerto do Madrigale na última terça-feira, dia 24/03, e, dentre várias peças, uma delas era o Romancero Gitano, de Mario Castelnuovo-Tedesco. Ali mesmo, no palco, falando sobre a obra e suas partes, pura e bela poesia espanhola, me veio a ideia de trazer para este espaço uma explicação mais detalhada do que é essa obra e, quem sabe, convidar vocês a escutá-la aos poucos, como quem entra num território novo. Um concerto comentado. Vamos lá?
Antes de entrar em cada uma das peças, vale dar um passo atrás.
O Romancero Gitano é um ciclo composto em 1951, já na fase final de produção de Castelnuovo-Tedesco, um compositor italiano que, depois de emigrar para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra, transitou entre a música de concerto e o cinema, mas manteve um vínculo muito claro com a tradição europeia.
Há um dado importante: sua relação com o violão, muito marcada pela amizade com Andrés Segovia. Isso não é detalhe, pois ele escreveu várias peças para violão solo. O ciclo Romancero é escrito para coro e violão, uma escolha que já define o tipo de escuta que a obra pede.
Os textos vêm do Romancero Gitano (1928) e do Poema del cante jondo (1921), de Federico García Lorca. Neles, Lorca não descreve o universo cigano, mas o reinventa. Cria uma Andaluzia simbólica, onde tudo carrega sentido: o destino trágico, a liberdade, a marginalidade, o erotismo, a morte e uma natureza que não é paisagem, mas linguagem (a lua, a noite, os rios, os cavalos).
O que Castelnuovo-Tedesco faz é transformar isso em som. E, para ouvir melhor, três chaves ajudam:
- o ritmo da língua espanhola, com seus versos octossilábicos organizando a pulsação;
- a atmosfera, que não ilustra, mas cria um espaço onde as imagens possam existir;
- e a relação entre coro e violão: o coro narra e o violão comenta, sustenta, tensiona, cria o chão.
O resultado é uma escrita clara, quase camerística, com uma beleza lírica evidente, quase sedutora, atravessada por uma tensão que nunca se resolve completamente. E, no fundo e resumindo, o Romancero Gitano é o encontro de três mundos: a poesia de Lorca, a tradição espanhola do violão, e a escrita refinada de um compositor europeu. E desse encontro nasce uma música que não descreve a Andaluzia, mas a recria.
E logo na primeira peça, já se abre esse universo:
1. Baladilla de los tres ríos
O poema constrói um contraste entre Granada e Sevilha através de seus rios: o Darro e o Genil, em Granada, e o Guadalquivir, em Sevilha. Mas não se trata de geografia. Trata-se de estado de espírito. Granada aparece fechada, introspectiva, quase silenciosa. Sevilha, aberta, luminosa, expansiva.
Castelnuovo-Tedesco traduz isso com uma escrita que alterna contemplação e movimento. O coro declama, respeitando o ritmo da língua, enquanto o violão cria uma paisagem sonora que não está atrás , está dentro da narrativa. A textura é transparente.
Como abertura, a peça cumpre um papel preciso: ela não explica o ciclo, mas, simplesmente, o anuncia. E anuncia bem porque, em poucas páginas, já está tudo ali: natureza, memória, identidade e uma tensão discreta que Lorca nunca abandona.
O resto da obra é, de certo modo, o aprofundamento dessa primeira imagem. (Amanhã, falo sobre a segunda peça: La Guitarra)
🎬Romancero Gitano Op.152 - "Baladilla de los tres rios" (Mario Castelnuovo-Tedesco)
I – Baladinha de Três Rios (tradução livre)
O rio Guadalquivir
entre laranjas e olivas.
Os dois rios de Granada
baixam da neve ao trigal.
Ai, amor
que se foi
e não voltou!
O rio Guadalquivir
tem as barbas
avermelhadas.
Os dois rios de Granada
um é pranto e outro sangue.
Ai,amor
que se foi
pelos ares!
Para os barcos de vela,
Sevilha tem um caminho,
pelas águas de Granada
somente remam suspiros.
Ai, amor
que se foi e
não voltou!
Guadalquivir, alta torre
e vento nos laranjais
Dauro e Genil, torrezinhas
mortas por sobre as
lagoas.
Ai, amor
que se foi
pelos ares!
Quem dirá que a água leva
um fogo fátuo de gritos!
Ai, amor
que se foi e não voltou!
Leva jasmim, leva olivas,
Andaluzia, a teus mares.
Ai, amor
que se foi
pelos ares!
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