domingo, 22 de março de 2026

Quando o Madrigal Renascentista cantou para Eisenhower

Mais um pedacinho da história do Madrigal Renascentista: 

Em 1960, no auge do projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e no contexto delicado da Guerra Fria, o Brasil recebia a visita do presidente norte-americano Dwight Eisenhower(1). A viagem tinha um peso diplomático evidente. A Operação Pan-Americana, proposta por JK, tentava construir um novo eixo de cooperação econômica no continente, enquanto os Estados Unidos observavam com crescente preocupação a aproximação entre Cuba e a União Soviética.

Nesse cenário, a cultura também fazia parte da diplomacia, e foi assim que o Madrigal Renascentista apareceu na cena.

O coro foi convidado oficialmente para cantar no Palácio da Alvorada durante a recepção ao presidente norte-americano. Não era uma escolha casual. Desde os primeiros anos de Brasília, o grupo já vinha sendo frequentemente convocado para eventos oficiais, como uma espécie de cartão de visita cultural do país.

Para essa apresentação, houve até um pequeno movimento de bastidores. Isaac Karabtchevsky, que estava na Alemanha em período de estudos, foi chamado de volta às pressas ao Brasil para reger o conjunto. Chegou poucos dias antes do evento e retornou logo em seguida à Europa para continuar seus exames no Conservatório de Freiburg.

O protocolo previa que o coro cantasse um conjunto relativamente amplo de peças. Mas a realidade diplomática raramente respeita programas de concerto. Um atraso na agenda da visita fez com que o cerimonial avisasse ao coro que haveria tempo apenas para duas músicas: uma brasileira e uma norte-americana.

O Madrigal começou com The Battle Hymn of the Republic, um hino profundamente associado à história dos Estados Unidos e o efeito foi imediato. Segundo relatos da época, Eisenhower ficou visivelmente emocionado. Cumprimentou rapidamente as autoridades presentes e pediu que o coro continuasse cantando. O programa acabou se expandindo ali mesmo, diante dos convidados, quebrando discretamente o protocolo previsto.

No centro da cena estava também Maria Lúcia Godoy (pra váriar). Sua interpretação de I got religion e da canção brasileira É a ti, flor do céu, executada a pedido de JK, arrancou aplausos entusiasmados do público.

Ao final da noite, já depois do jantar oficial, Eisenhower pediu que o coro permanecesse na biblioteca do Palácio da Alvorada para cantar novamente. Os cantores acabaram sentados no chão, conversando informalmente com o presidente norte-americano e pedindo autógrafos, algo que o cerimonial inicialmente tentou impedir.

Dias depois, já em Buenos Aires, Eisenhower enviaria uma carta a Isaac Karabtchevsky agradecendo pela apresentação e elogiando o coro.

É curioso pensar que, naquele momento, um grupo de jovens cantores de Belo Horizonte participava silenciosamente de um capítulo da diplomacia continental. 

A música coral tem dessas coisas. Ela parece discreta, quase invisível na história oficial. Mas, de vez em quando, surge no centro do palco, cantando para presidentes, quebrando protocolos e lembrando que, entre discursos e tratados, a arte continua sendo uma das formas mais diretas de comunicação entre os povos.

 


“Caro Isaac Karabtchevsky; esta carta é apenas para dizer-lhe, assim como
aos cantores do Madrigal Renascentista, o quanto me agradou a sua audição
aquela noite, no Palácio Presidencial de Brasília. Para todos vocês mando
meus efusivos agradecimentos pela contribuição tão generosa do seu talento.
Apresente, por favor, minhas especiais felicitações e comprimentos à sua
solista, Maria Lúcia Godoy, e, para todos vocês, minhas melhores saudações.
Sinceramente, a) Dwight D. Eisenhower. P. S. Estou encantado com a gravação

que você me enviou.” (Tradução do autor)


(1) Dwight D. Eisenhower (1890–1969) foi general do Exército dos Estados Unidos e 34º presidente do país (1953–1961). Teve papel central na condução das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial e, como presidente, atuou na consolidação do cenário geopolítico do pós-guerra.

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