O Madrigal Renascentista voltou à estrada. A excursão retomava a lógica dos Community Concerts, com apresentações em cidades menores, auditórios universitários e comunidades que recebiam o “Coro do Brasil” como parte de suas temporadas culturais. O percurso seguiu por Kingston, Augusta, Portsmouth, Laconia, Peekskill, Chambersburg, Vincennes, Goshen, Appleton, Decorah, Mount Pleasant, Keokuk, Atchison, Hannibal, Bolivar e Springfield. Se vista assim, a lista já cansa, imaginem atravessá-la de ônibus, em pleno inverno, cantando quase todas as noites.
Nesse trecho, Newton Silva parece menos interessado em repetir comentários sobre os concertos e mais atento ao país que passava pela janela. Em Augusta, no Maine, com temperatura de doze graus abaixo de zero, o grupo encontrou flores vermelhas nas janelas do hotel. Alguém suspeitou: deveriam ser de plástico. Eram. O detalhe ficou como pequena síntese de uma América preocupada com aparência, ordem e cuidado visual. Casas limpas, fachadas bem conservadas, interiores aquecidos, papel de parede, abajures, conforto elétrico. Tudo parecia pronto para mostrar prosperidade.
Mas essa aparência também tinha fissuras. Newton observava que as casas malcuidadas apareciam sobretudo em bairros negros ou em regiões rurais pobres. Hoje, esse comentário salta aos olhos. O cronista talvez registrasse aquilo como contraste de viagem; nós lemos também como sinal de uma sociedade profundamente marcada por desigualdades raciais e sociais. Ou seeja, o sonho americano, visto de perto, não era uniforme.
Em Portsmouth, o Madrigal entrou pela primeira vez na intimidade de uma casa americana. Charutos, cerveja, uísque, piano de cauda, estantes de livros, objetos de arte, antiguidades, paredes com papel decorado, quartos aquecidos. A casa de classe média se tornava quase um museu doméstico da respeitabilidade americana. E ali, entre conversas sobre café, inflação e impressões pouco generosas sobre o Brasil, ouviu-se Bidu Sayão cantando Villa-Lobos. A cena é curiosa: o Brasil era criticado, mas também exibido como refinamento cultural.
Com o passar dos dias, os cantores foram se acostumando. O inglês deixava de ser muralha absoluta, mesmo que ajudado por mímica. As drug-stores, as lojas de departamento, as liquidações, os souvenirs e até o sistema da honor box, em que se pagava espontaneamente por jornais e revistas, viravam matéria de espanto. O consumo americano não aparecia apenas como compra. Era pedagogia. Ensinava um modo de viver, desejar, circular e confiar.
O interior também oferecia encontros inesperados. Em Indiana, havia uma pequena cidade chamada Brazil, com um chafariz de estilo ouro-pretano oferecido pelo governo brasileiro. Em Decorah, Iowa, descendentes de noruegueses serviram um smorgasbord, com direito a busto de Lincoln esculpido em gelo. Em Keokuk e Hannibal, o rio Mississipi trouxe a memória de Mark Twain e dos velhos barcos. Tudo virava imagem, comparação, fotografia, surpresa.
Talvez seja por isso que essa viagem tenha sido tão marcante. O Madrigal levou música aos Estados Unidos, mas também trouxe de volta um olhar sobre aquele país. Um olhar fascinado, às vezes ingênuo, às vezes crítico, sempre atravessado pelo espanto de quem via, no cotidiano americano, uma ideia de futuro que parecia muito distante do Brasil de 1965.
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