Depois de disponibilizar o Magnificat em Ré maior, vale olhar um pouco para Manoel Dias de Oliveira (1735-1813), não como nome distante da chamada música colonial mineira, mas como músico de ofício, ligado a um mundo em que compor, copiar, reger, cantar e servir às irmandades faziam parte de uma mesma prática. Esses compositores, muitas vezes, acabam colocados em uma vitrine histórica: o nome fica bonito, a obra parece importante, mas a música se afasta da vida concreta que a produziu.
Manoel Dias atuou na região de São José del-Rei, atual Tiradentes, em uma Minas onde a música sacra era devoção, mas também trabalho, função pública, encomenda, circulação e prestígio. As irmandades e ordens terceiras criavam demanda, organizavam festas, missas, procissões e ofícios. O compositor não escrevia para um repertório abstrato, escrevia para ocasiões, igrejas, grupos disponíveis, acústicas conhecidas e comunidades que esperavam ouvir aquela música.
A música de Manoel Dias não nasceu como peça de museu. Nasceu para funcionar e isso não diminui sua força. Uma obra como o Magnificat responde ao texto, ao rito, ao espaço, à solenidade e aos músicos disponíveis. Sua funcionalidade é parte da composição.
Para os coros de hoje, talvez esteja aí seu interesse. Esse repertório não precisa circular apenas por dever histórico. Pode ensinar outra relação com o som, com o texto latino, com os instrumentos, com o brilho ritual e com a ideia de música feita para ocupar uma igreja. E o Magnificat não é, nem de perto, uma música tímida. É uma música que quer presença, espaço e luz.
Manoel Dias de Oliveira não precisa ser reverenciado à distância. Precisa ser cantado, tocado, estudado, comparado, discutido, recolocado em circulação. Quando essas obras voltam ao ensaio, deixam de ser apenas patrimônio e voltam a ser música. E música, quando volta a soar, também exige escolhas, revela problemas, incomoda e ensina.
Faz uns bons anos que não me dedico ao repertório colonial. Acho que está na hora de voltar...
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