sábado, 25 de julho de 2026

O sonho americano do MR (V): Washington e a diplomacia cultural

Newton Silva viu Washington como uma cidade larga, fria, limpa, cheia de monumentos e edifícios públicos. Uma cidade feita para o poder. Havia neve, havia solenidade, havia a proximidade da posse de Lyndon Johnson. E havia também uma tensão natural: o público era exigente, a crítica era dura, e os brasileiros presentes sabiam que uma apresentação ruim não seria apenas uma apresentação ruim. Pesaria sobre o coro e sobre a imagem que se queria mostrar do país.

Até ali, o Madrigal vinha cumprindo a rota dos Community Concerts: cidades menores, universidades, associações locais, auditórios preparados para receber artistas de fora. Na capital, o concerto de 14 de janeiro de 1965, no Lisner Auditorium, tinha o patrocínio da Embaixada do Brasil e a presença do corpo diplomático brasileiro. Ali, o coro não entrou só para cantar, mas com representante oficial do Brasil.

É aí que a diplomacia cultural deixa de ser uma ideia abstrata. Ela acontece quando um país tenta ser visto por meio de seus artistas. Não por discurso oficial, mas por som, presença, disciplina, repertório. Em Washington, o Madrigal mostrava um Brasil que talvez os americanos não esperassem encontrar: um Brasil coral, preparado, jovem, sério, capaz de cantar Victoria, Ravel, Debussy, Villa-Lobos e spirituals com segurança.

Paul Hume, crítico do Washington Post, elogiou a clareza do coro, a precisão dos ataques, a leveza da sonoridade e o trabalho de Karabtchevsky, capaz de tirar daquele grupo um acabamento próximo ao de uma orquestra de câmara. Não era elogio de cortesia. Vindo de quem vinha, em Washington, aquilo valia muito. Isaac diria depois que esse concerto definiu o sucesso do restante da viagem.

Depois veio a feijoada oferecida pelo embaixador Juracy Magalhães. O detalhe parece pequeno, mas não é. Depois de dias de estrada, frio, hambúrgueres, frango, milk-shakes e comida estranha, comer feijoada na Embaixada era quase voltar para casa por algumas horas. A diplomacia também passa por isso. Passa pelo palco, pela crítica, pela televisão, mas passa também pela mesa. Pelo cheiro conhecido. Pela comida que lembra de onde se veio.

Dois dias depois, ainda em Washington, o Madrigal gravou para o programa Panorama Pan-Americano, que seria transmitido por uma rede de emissoras sul-americanas, incluindo a TV Itacolomi. O coro deixava de existir apenas para quem esteve no auditório. Virava imagem, notícia, registro. O “Coro do Brasil” passava a circular também pela televisão.

Washington foi isso: um concerto, mas não só. Foi palco, embaixada, crítica, feijoada, televisão e política cultural misturadas no mesmo episódio. O Madrigal cantou como coro. Mas, naquela noite, foi ouvido como Brasil.



Lisner auditorium (Washington)

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